“Não tenho ambições nem desejos; ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho”.
Fernando Pessoa
In “O Guardador de Rebanhos”
QUANDO LERES ESTA CARTA … (Poesia, contos e cartas)
Capa: Paulo Bezerra Filho
Revisão: Hugo Vaz
Editoração eletrônica: Lourdes Duarte
Impressão: Comunigraf Editora
Ano:2008
DEDICATÓRIA
Dedico este livro à memória de Carmen e Francisco, meus pais, que sempre me ensinaram a nunca desistir da luta contra todos os preconceitos raciais, sociais ou econômicos.
AGRADECIMENTOS
Ao amigo Hugo Vaz, grande incentivador, que sempre consegue enxergar valor em tudo quanto escrevo, e à minha irmã Lucilla Ignez, pela sua dedicação e incentivo, cujo refinado toque revisional está presente em cada página deste livro.
PREFÁCIO
Hugo Vaz
Rainer Maria Rilke, poeta austríaco (1875-1926), considerado o maior poeta do século XX, é autor de célebre obra intitulada “Cartas e um Jovem Poeta” (Briefe na einem Jungen Dichter). Nesse livro Rilke elabora uma teoria existencialista da arte poética. Lendo agora, a poesia e a prosa de Paulo Bezerra recordo (gratificado pela ditosa incumbência de escrever o prefácio do seu livro “Quando leres esta carta…”, que os primeiros versos do poeta Rilke em torno do ano de 1902 foram classificados pela crítica germânica e parte da européia, como “sentimentais e de fraca originalidade”. Faço alusão ao escritor Rainer Maria Rilke em face de alguns aspectos coincidentes flagrados na escritura de Paulo Bezerra.
Primeiro: a literatura de Paulo Bezerra é toda ela também fortemente sentimental. Está ´patente em cada verso e em cada linha de sua prosa a capacidade de sentir; a faculdade de conhecer e revelar-se, apreciando a relação afetiva entre o ser humano e as coisas de ordem moral e intelectual. É possível que Paulo Bezerra tenha aprendido com Rilke os fundamentos conceituais da arte poética. Sua poesia, tanto quanto a prosa, revelam essa possibilidade.
Segundo: A prosa e os versos de Paulo Bezerra desvelam a cada passo vigoroso existencialismo (Exemplos: os curtos contos “Matar Malhado”, “Zé Ciço” e “Rua do Chacon”). Em seus versos e em sua prosa evidencia-se a preocupação – tendência filosófica – “pela reflexão e pelo modo de ser próprio do homem na sua concretude individual, singular e solitária”, a maneira de filósofos tais como Heidegger, Kierkegaard e Jean Paul Sartre.
Terceiro: há, todavia, neste terceiro aspecto, comparando-se as lições do poeta Rilke com a experiência literária de Paulo Bezerra, uma espécie de dicotomia, uma divisão lógica de um conceito em dois outros conceitos. Enquanto os primeiros versos do austríaco foram julgados “ de fraca originalidade”, pode-se afirmar. Sem mínima dúvida, que a poesia e a prosa de Paulo Bezerra são decididamente originais e de bom feitio, inéditas.
Rilke, por sua vez, foi um dos poetas líricos mais importantes da poética alemã e expressivo representante da escola simbolista. Sua poesia, como a de Paulo Bezerra, é marcada pela riqueza de imagens e pela musicalidade, geralmente significando exaltações à experiência humana.
Os versos de Paulo Bezerra, por exemplo, que abrem as portas deste livro – “Quando leres esta carta…” – são seguramente e vigorosamente sentimentais e originais:
“… quando leres esta carta…
eu estarei contido nela.
E me verás sorrir
no ar que te afaga,
nas estrelas que brilham para ti…”
Ao longo de mais de meio século de atividades jornalística e literária, exercendo as funções de editor, redator, revisor e copidesque ( e algumas vezes até de repórter), sempre que me chegam aos olhos um texto jornalístico ou literário (*), me ocorre à lembrança o pensamento cartesiano do jornalista, escritor e dramaturgo irlandês George Bernard Shaw (1856 – 1950), o qual tenho repetido inúmeras vezes em textos diversos:
“ Escrever é fácil ou impossível”.
Essa afirmativa ocorre-me agora em face da leitura do excelente texto litero-jornalístico-poético de autoria de Paulo Bezerra. Para ele o ato de escrever deve ser muito fácil, facílimo provavelmente. Sua prosa e seus versos são limpos, sem rebarbas, escorreitos, irrepreensíveis, agradáveis de ler.
O escritor bissexto, poeta e epistológrafo Paulo Bezerra, um tímido entre quatro paredes, mas que ora se extroverte ao cenário das letras, oferece ao leitor este curioso e gostoso livro. Leiam-no. Não se arrependerão.
(*) – Há três correntes de pensadores que divergem quanto à conceituação técnica de jornalismo e literatura. Uns querem que estejam separados, outros que ambos são a mesma coisa. E terceiros julgam que jornalismo é literatura feita às pressas.
APRESENTAÇÃO
Quando leres esta carta… é uma colcha de retalhos. Nota-se, na sua constituição, uma diversidade tão grande de elementos díspares, que poder-se-ia pensar estar faltando uma costura aglutinadora. Há, entretanto, um elemento vinculante que une poesia, crônica, ensaio, e carta. É o fato de todos terem sido publicados, muito provavelmente por liberalidade dos editores dos jornais, revistas e livros que os publicaram.
Quando Deus me presenteou com as companheiras de viagem que chamo de “As três Marias” (poliomielite – prótese de válvula cardíaca e Miastenia Gravis) deu-me, em decorrência, um outro mimo: a timidez. Tornei-me um anti-social que adora ficar em casa. Acontece que meu pequeno mundo nunca foi deserto, mas sim povoado por milhares de personagens fascinantes saídos das obras que leio. Cedo aprendi que em um livro, o autor coloca o seu melhor, por vezes amealhado por anos a fio. E sem esforço, abrimos o seu trabalho e absorvemos a ciência por ele adquirida e colocada à nossa disposição.
Começando na mais tenra infância como devorador de revistas em quadrinhos, evoluí para os livros de histórias e finalmente para os romances e livros técnicos. Tanta mensagem terminou por transbordar em minha mente e quando tinha apenas 15 anos, surgiu o primeiro livro, manuscrito e depois encadernado. Chamava-se “Tomo I” e era essencialmente de plágios. Eu “adaptava” as matérias que me encantavam, dando-lhes uma roupagem nova com o meu toque pessoal. Ninguém foi enganado por ele, pois nunca o exibí. Mas, principalmente, nunca me enganei com o tal “Tomo I”.
Já menos pretensioso, na casa dos vinte e poucos anos, escrevi, este sim, saído da minha cabeça, um livro de poesias, prosas e crônicas, ao qual dei o título humilde de “ Anotações. “ Toda a tiragem desse livro, (já agora datilografado), resumiu-se a um mísero exemplar, que mandei encadernar.
Mesmo sabendo que não era um escritor, atrevi-me a enviar colaborações para jornais, revistas e livros. E elas foram sendo publicadas. Fui me entusiasmando e onde chegava criava um Jornalzinho, explorando principalmente o humor. Na Faculdade de Direito da UFPE, durante meu curso, fundei dois jornaizinhos com edição mensal: O FERA, no primeiro ano e o ESFERA no segundo. Fiz parte do Conselho editorial do DRT-NOTÍCIAS, jornal oficial da Delegacia Regional do Trabalho em Pernambuco, onde fui Auditor. Concomitantemente ao oficial, criei um outro jornal, este de humor chamado SÓ…RINDO.
PARTE I – POESIA
QUANDO LERES ESTA CARTA…
QUANDO LERES ESTA CARTA…
EU JÁ TEREI PARTIDO.
ESPERO TER TEMPO,
NO SUPREMO MOMENTO,
DE REVELAR TEU NOME
A QUEM ME ASSISTIR.
ANTES , NÃO.
ELA FICARÁ POIS EM SUSPENSO,
SEM DESTINATÁRIO,
ATÉ QUE EU DIGA
A QUEM ELA PERTENCE.
QUANDO LERES ESTA CARTA…
SABERÁS DO QUANTO TE AMEI.
DO QUE SENTIU
MEU CORAÇÃO MEDROSO
QUANDO TE CONHECI.
QUE TE ADOREI, ASSIM, SEM MOTIVO,
PERDIDAMENTE.
QUANDO LERES ESTA CARTA…
É BOM QUE SEJA NATAL,
PORQUE É A MAIS BELA
NOITE DO ANO,
E O TEU CORAÇÃO
ESTARÁ MAIS LEVE
PARA ME RECEBER.
E, SE FECHARES OS OLHOS
QUANDO LERES ESTA CARTA…
EU ESTAREI CONTIDO NELA.
E ME VERÁS SORRIR,
NO AR QUE TE AFAGA,
NAS ESTRELAS
QUE BRILHAM PARA TI…
(Escrito no Natal de 1960 e publicado no Jornal Universitário “ O Fera”, Ano I – No. 02, em Julho de 1965 e na Internet
R U A D O C H A C O N
Oh, minha rua encantada
Já foste tão sossegada,
Tão gostosa de morar:
Hoje estás toda assanhada
Urbanizada, calçada,
Não dá mais pra te agüentar.
À noite se discutia
O que ocorria de dia
Assembléia de calçada:
Quem bebia ou não bebia,
Quem ia ficar pra titia,
E haja piada engraçada.
Já não guardas Seu Firmino
Ourives de muito tino
Que de ti foi fundador;
Zé Ramos, Mario Coutinho,
Geraldo de Geraldinho,
Me diga: Quê que restou ?
Te sinto hoje estreitada
Até ficaste acuada,
Cercada por espigões:
Agora tu és só um pagem
De rua viraste passagem
Pra casa dos figurões.
Publicada em LITERATURA E ARTE
Jornal do Commercio do dia 19.07.87 – domingo
SILÊNCIO
Quando a jangada virou,
“Velho Biu” estava só.
Nenhum companheiro
Àquele dia.
O vento partiu,
Logo que pôde,
O mastro
E logo que pôde
A onda,
Virou os toros.
A água fria, o vento frio,
O coração gelado:
Sintomas, nítidos, de pânico,
Invadindo, de mansinho,,
O crânio,
No princípio, logo,
Da tempestade.
Céu escuro – quase preto
Vento forte – quase louco
Mar agitado – quase ferve.
Deus, tosse, água,
]Maria, Deus, água,
Tosse, pulmões, olhos,
Filhos, morte, Deus,
Silêncio…
(Publicado no Jornal FASA-Notícias, ano IV – n_ 03 – 13/03/1964)
SOLIDÃO
Hoje eu gostaria de ter asas…
Fortes e longas, para me sustentarem
Neste azul tão lindo que está o céu…
Voar por sobre montanhas e rios.
Dar razantes sobre mares.
Depois, seguir em linha reta,
Rumo às estrelas,
Tão solitárias quanto eu…
Sentir o vento batendo no meu rosto,
E enxugando as minhas lágrimas…
Penetrar no algodão das nuvens
E deixar a água empapar meu corpo…
Procurar, depois,
A mais alta montanha da terra,
E dormir meu sono
Sem sonhos,
Nem despertar.
(Publicado in AGITEPE INFORMA – ANO 2 – No.6 – Março de 2002.)
<!–[if gte mso 9]> Normal 0 21 false false false MicrosoftInternetExplorer4 <![endif]–><!–[if gte mso 9]> <![endif]–> PARTE II – PROSA
ADEUS A EDUARDO
Prólogo:
Eduardo teria sido um grande cantor, se não tivesse posto fim à própria vida, antes dos dezoito anos. Trabalhamos juntos na Fosforita Olinda S/A. e nossa turma recém saída da adolescência, dava os primeiros passos na boemia. Ganhou o concurso da “Voz de Ouro ABC”, mas perdeu o rumo. Abraçou com muita garra o violão e a bebida. Foi expulso de casa, demitido da firma, rejeitado pela namorada. Não dava ouvidos a conselhos dos amigos. Terminou dando o grande salto no escuro, justo no dia do seu aniversário. Esta foi a crônica que escrevi para homenagear o amigo.
————————–
Chorei por ti, “Velho Duda”. A notícia de tua partida demorou a amadurecer em minha mente. Sendo o mais animado, eras sempre o último a partir de qualquer reunião, por isso eu só podia te imaginar, feliz. Lembra-te “Velho”, quando começamos a dedilhar violão? Apesar dos meus esforços, estavas sempre mais adiantado, porque tinhas talento. E com tua paciência e minha teimosia, passávamos sempre horas alegres, quando nos reuníamos.
Agora Duda, quando nos encontrarmos outra vez, tudo será diferente. Terás desenvolvido infinitamente o teu talento, sob a batuta do Maestro Supremo. Não duvido nada estares encarregado da recepção. Antes de levar-me à Diretoria, certamente me mostrarás os arredores:
O lugar do pôr-do-sol, onde fica guardada a lua que amavas (eu já pedirei desculpas, por ter rido da valsa que fizeste, na qual falavas nesse lugar). Mostrar-me-ás também o coro que estarás dirigindo, onde terá um anjinho, que nunca consegue dar os agudos.
Mas, enquanto isso não acontece, trata de conquistar o Maestro. “Ele” é muito Bom, sabe, Justo e Misericordioso, Perfeito e Eterno. Uma vez integrado na sua orquestra, tu o amarás sobre todas as coisas e só cantarás a sua Glória. Mantendo o devido respeito, usa para com “Ele” àquela sinceridade que sempre te definiu. “Ele” sempre dá uma oportunidade a jovens músicos inexperientes. Aceitará a tua admissão, nem que para tal tenha que criar o cargo de “Polidor de instrumentos”, o que será glória maior, do que a celebridade passageira.
É possível, “Velho Duda”, que neste momento já hajas passado pelo teste final. Talvez te tenham destacado para alguma estrela solitária, longe, longe. À medida que te fores integrando na Harmonia Divina, virás sendo transferido, de estrela em estrela, até chegares à lua, que a nossos olhos, brilha mais do que todas elas. Algumas vezes, cantarei ao luar, músicas que gostavas de cantar. Se não gostares, inventa uma nuvem que obscureça a luz. Mas se, ao contrário, puderes suportar os agudos desafinados, recebe a homenagem sincera do teu amigo. Adeus, Eduardo.
(Publicado no DIÁRIO DE PERNAMBUCO, em 26/05/1963 – Domingo)
V Ô O S I M P O S S Í V E I S
O trinado do canário quebrou o silêncio com que a madrugada se acercava das coisas. Ligeiras manchas na barra do horizonte, denunciavam o nascer do novo dia.. Um irmão livre do meu pássaro aproximou-se da gaiola colocada do lado de fora da janela, a cata de algum grão de alpiste ao seu alcance. E o meu prisioneiro, aos pulos, só almejava a liberdade. Olharam-se por um momento apenas, invejosos um do outro. O parasita e o operário. A segurança forçada e a liberdade insegura.
O selvagem desapareceu de repente no pardo alvorecer, ao reconhecer a impossibilidade de ser feliz. O outro ficou, a sonhar vôos impossíveis ao lado do companheiro. Um dia fora livre e a fome o castigara. Hoje a fartura o retém.
A chama passou assim, de raspão apenas nos teus olhos. Apenas o suficiente para que eu a notasse. Quando novamente o teu olhar se acercou do meu, já havia nele, a impossibilidade de ser feliz.
Dentro de nós, existem situações assim.
( Publicado no jornal “O FERA”, Ano I No.04, Abril de 1965.
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PARTE III – CRÔNICAS
A FOSFORITA E A ECONOMIA PERNAMBUCANA
“O fósforo é a espinha dorsal da Humanidade”.
F. D. Roosevelt
I – QUE É “FOSFORITA DE OLINDA”?
Quando Pernambuco era oceano, há milhões de anos, muito antes de existir o homem,resíduos fósseis de animais marinhos, depositados no fundo do mar, originaram rochas sedimentares ricas em fosfato natural – Fosforita. Com as convulsões do período terciário, ao surgir das águas o litoral nordeste do Brasil imensas riquezas ficaram quase à flor do solo, nas proximidades de Olinda. Só em 1949 seria revelado ao Homem o milenar segredo da natureza, descobrindo-se jazidas de fosfato em volume suficiente para atender às necessidades da agricultura nacional. Em 1535, nas terras hoje ocupadas pela Fosforita Olinda, o fidalgo português Jerônimo de Albuquerque fundou o primeiro engenho de açúcar do Nordeste, que a princípio se chamou de Nossa Senhora da Ajuda e, mais tarde, Engenho Velho. No século atual tornou-se conhecida como Forno da Cal. Em 1949, no curso de pesquisas para a localização de fontes de água mineral nas terras do antigo engenho, foram ali descobertas imensas e ricas jazidas de fosfato natural do melhor teor. Esse feliz acaso, verificado no momento em que a agricultura brasileira dependia, cada vez mais, da importação do fosfato estrangeiro, resultou na criação da Fosforita Olinda S/A.
II _ ASCENÇÃO E QUEDA DE UM SONHO NORDESTINO
Vencidas as pressões iniciais dos produtores estrangeiros que viam fugir-lhe das mãos um excelente mercado, bem como as pressões internas dos favorecidos com polpudas comissões pela colocação do produto importado no Brasil, iniciou-se a produção regular do produto em fins de 1957 e, dois anos após, em 1959.já se havia possibilitado ao país uma economia efetiva de divisas superior a 9 milhóes de dólares. gráficos de produção e venda mostravam-se animadores conforme demonstramos a seguir.
Ano Produção Venda
1957 42.000 toneladas 28.000 toneladas
1958 112.000 toneladas 108.000 toneladas
1959 165.000 toneladas 157.000 toneladas
1960 155.000 toneladas 160.500 toneladas
A Fosforita concorria para garantir ao país a auto suficiência no campo dos fertilizantes fosfatados, com uma gigantesca reserva de 50 milhões de toneladas, que assegura o abastecimento regular desse rico fertilizante à agricultura nacional. Por essa época, Pernambuco através de suas minas de fosfato, mostrava que, dentro em pouco, seria a redenção do Nordeste. Nunca o termo “seria” foi empregado com tanta propriedade, pois a propalada redenção ficou, até a época atual, marginalizada e asfixiada pelos desmandos dos três últimos governos.
Dependendo preponderantemente de frete marítimo (só o porto de Santos – SP absorve 84% da produção), viu-se a Fosforita a braços com uma política de fretes discriminante, que favorecia “in totum” ao similar estrangeiro, em detrimento à indústria nacional. Não poderíamos concorrer com o truste internacional, dentro do nosso próprio país. Pagávamos muitas vezes mais caro para transportar uma tonelada Recife/Santos, do que o concorrente para o transporte Flórida/Santos.
III _ A TARTARUGA INDEFESA
Tornando-se de exploração deficitária, a Fosforita estava a mercê dos seus concorrentes. Nada mais lógico do que cerrar suas portas, liquidando mais um sonho de uma região fadada a uma eterna orfandade. Dizem, entretanto, os antigos que “a madeira mais forte é a do cimo dos montes”. Assim, o punhado de nordestinos autênticos que fundou a Fosforita, apenas continuou a resistir pressões, que se lograssem êxito, não teriam deixado ao menos iniciar-se a obra redentora. No biênio 1961/1962, para manter-se, a Fosforita mudou praticamente de ramo, passando a comercializar com adubos estrangeiros importados, produzindo fórmulas de adubação completas, nas quais podia empregar o seu produto, entregando-o ao público consumidor sem prejuízo total, como seria o caso vendendo-o isolado. A situação se nos apresentava como a metáfora de uma gigantesca tartaruga de 50 milhões de toneladas, que recolhe-se ao seu casco, a espera do afastamento0 dos seus algozes. A luta continua. No âmbito industrial tem-se feito o impossível para superar a produção dos últimos anos, muito aquém das reais possibilidades da empresa. No plano das reivindicações praticamente mantemos uma linha de frente em Brasília, junto ao Senado Federal, em defesa dos nossos direitos, na pessoa do Senador Aurélio Viana.
O Governo Federal deveria atentar para esse esforço titânico, dando à indústria nacional ao menos condições de igualdade, para concorrer com o produtor estrangeiro. Não quer a indústria pernambucana privilégios. Deseja, apenas, condições de igualdade com os seus concorrentes estrangeiros. E isso o governo pode dar. Se não o faz é porque tem se limitado a resolver “crises políticas”, desprezando os setores econômico e social.
(Publicado no Jornal LEX, da Faculdade de Direito do Recife – primeiro semestre de 1967).
NOVOS TEMPOS
Reclamamos de tudo mas a verdade é que hoje se vive bem mais e melhor do que nos “velhos tempos”. Pouquíssimas casas de classe média possuíam geladeira nas décadas de 40 e 50. A água esfriava em quartinha ou filtro de barro. A estocagem de alimentos perecíveis era um problema. Galinha comia-se aos domingos, em dias de festa ou estando doente. Não existindo granjas o animal era comprado vivo,
obrigando o comprador a sangrar, depenar e esquartejar. Automóvel, supra sumo do status, todos importados até meados dos anos 50, só possuía quem fosse realmente rico. Cinema era divertimento dos domingos. Televisão no Nordeste, só a partir de 1960, inovando os costumes e criando a figura do tele-vizinho.
A Embratel trouxe a alegria da Copa de 1970 ao vivo. Hoje tem futebol na TV todos os dias e em todas as horas para quem tem TV a cabo. Podemos alugar ou comprar fitas de todos os filmes ou filmar a infância dos nossos filhos, eternizando-a. Os nascidos nas décadas de 40 ou 50, estavam sujeitos a adquirir o vírus insidioso da Poliomielite. Nossos filhos e netos, são protegidos pela Vacina Sabin, que aperfeiçoou a Salk. As infecções eram combatidas com a tóxica Sulfa. Depois, o que já era um avanço, com as dolorosas injeções de penicilina gelada, a cada três horas.
Hoje, potentes antibióticos são ingeridos por via oral, para 24 horas de efeito contínuo. Nos “Velhos Tempos”, em lugar de Acidente Vascular Cerebral, (AVC), as pessoas tinham era uma “Congestão”, que era tratada com doses de “Aguardente Alemã”, até hoje vendida em farmácias, principalmente do interior.
Marcapasso, Pontes de safena e Válvulas cardíacas, trouxeram sobrevida a doentes do coração, que podem até, como recurso extremo, sofrer transplante do órgão vital, coisa inimaginável nos “Velhos Tempos”.
Por tudo isso, quando você fizer uma ligação via DDD, acessar o Museu do Louvre do seu computador ou deslocar-se em poucas horas de vôo a distância que Cabral cobriu em meses de atropelos e incertezas, sinta-se participante dos “Bons Tempos” de hoje, infinitamente melhores do que os “Velhos Tempos” de ontem e anos-luz inferiores aos “Novos Tempos” que virão.
(Publicado no livro CARTAS PERNAMBUCANAS, da A.I.P. em 1998).
JESUS EM CASA FORTE ?
Sobravam razões para as autoridades do Sinédrio estarem preocupadas. Já não bastava a pregação incendiária de João Batista e surge agora, esse tal de Jesus, um simples carpinteiro, vindo de Nazaré, dizendo-se “Filho de Deus”, subvertendo a ordem estabelecida e comandando uma turba de mendigos ignorantes, que pode representar um perigo. Como prevalecer nossa autoridade, pensavam eles, e não parecermos impopulares?
Os mais simples estavam maravilhados. Quem é esse homem que fala-nos por parábolas que entendemos, cura nossas doenças, diz-se “Filho de Deus” e no entanto nos trata como iguais? E sobretudo, prega tanto sobre o amor. Será que o amor existe mesmo? E se existe, teremos nós, os esquecidos da sorte, direito a ele? Ou só os poderosos podem ter acesso à ternura amorosa?
A cada dia, mais notícias inquietantes: Expulsou os mercadores e cambistas do Templo…curou paralíticos…cegos voltaram a enxergar…demônios foram expulsos … Será que falara mesmo que, se destruído o Templo, que levara décadas para ser edificado, o reconstruiria em três dias?… O povo inventa tanto… Era preciso encontrá-lo. O próprio primo João Batista, que o batizara, envia um emissário para perguntar: És tu mesmo o Messias ou devemos esperar outro? Como poderia um pequeno inseto, entender a grandeza de uma estrela… Mas que restava em todos, no fundo do coração, aquela esperança que nos anima a vida, isto existia…
- “ Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito”… e o mundo inteiro vacilou. Teria sido mesmo um Deus, a quem matamos ?
A Igreja inteira ouviu maravilhada, poucos anos atrás, a pregação de Dom Hélder, na Quinta feira Santa, na Matriz da Casa Forte:
“Meus irmãos, que satisfação eu sinto ao ver a nossa Igreja repleta,, na Cerimônia da Ceia do Senhor. No entanto, se algum órgão de divulgação houvesse anunciado : ESTA NOITE, NO BAIRRO DA CASA FORTE, JESUS ESTARÁ PRESENTE… Ah, meus irmãos, a multidão seria tamanha, que os automóveis deixariam de trafegar em nossa cidade, por absoluta falta de espaço. E no entanto, é isso que vai acontecer agora, após a consagração do Pão e do Vinho: “Ele” estará aqui no meio de nós.”
Diz o Hino Sacro: “No meio dos louvores, Deus habita” Nada mais real. Jesus esteve realmente ali. Através dos louvores dos fiéis, da Consagração do Pão e do Vinho, do seu Pastor, a quem deu o dom da Palavra, para anunciá-lo.
Também estiveram ali, naquela noite, os membros do Sinédrio, os que duvidam, os que já não duvidam, os julgadores. Hoje trajando ternos, vestidos, jeans, camisetas… Mas todos ali… E Jesus também.
(Publicado no Jornal FOLHA FORTE Ano II – Folha 7 – abril/1997 e no JORNAL DO COMMERCIO de 17/11/1999 – Quarta feira)
GLÓRIA EFÊMERA
Hoje eu lería os clássicos. Sinto em mim tamanha sede de conhecimentos, que passaria dias e noites assimilando a ciência qie os grandes transformaram em livros.
Começaria por Chateaubriand e o seu “Gênio do Cristianismo”. Sem nenhuma duvida o Padre Vieira viria em seguida, começando pelo “ Sermão da Sexagésima”. E tu, Virgílio, com tua “Eneida”, me transportarias para a antiguidade clássica. Tua epopéia continua hoje através dos Enéas atualizados.
Cícero, nobre amigo, não fales das tuas centenas de escravos que te enriqueceram. Que me fales, isto sim, de Catilina, aquele patife que passas-te à História.
Alencar, nos deves outro livro. Exatamente um livro que comece onde termina “O Guarani”. Já estão na liça os cavaleiros. Resta apenas Sir Walter Scott dar o sinal de partida, para explodirem diante de nossa imaginação, todas as emoções dos torneios.
Longa noite de agonia desceu sobre a França e a Polônia. A guerra surge com toda a sua fúria, impingindo hecatombe ao mundo. Heróicos países, diz Maritain. Viva a França e viva a Polônia.
A Revolução francesa foi o clímax de um século de oposição ao domínio de uma aristocracia decadente. Começa assim a descrição de Edward Burns sobre o movimento que instituiu o Diretório na França.
“Que importa o leão se a verdade das gazelas, é ser aberta por uma patada à luz do sol…” Qual sería a tua verdade, Exupéry, somente pilotar aviões ? Ou já esperavas ter por túmulo, o oceano, salso e largo ?
Concluiria vivendo com os grandes generais, as grandes batalhas. Caio Julio César contar-me-ía sua estratégia, através de “ De Bellum Civilii” e “ De Bellum Gálico”.
Estaria ao lado de Haníbal em Canãs porém não acompanharia o seu exército até Cápua, onde o ócio destrói a fibra.
De Napoleão, presenciaría o episódio do V Regimento: “ Soldados, se há entre vós um só que deseje matar o vosso imperador, aqui estou…” Pobre Napoleão. Tão grande vitória para apenas cem dias de glória.
“ O Tratado de Versalhes é uma humilhação grande demais para o bravo povo alemão. E Hitler, explorando um ultra nacionalismo, cria o nazismo…
Sucedem-se os homens, suas glórias, suas derrotas, seus feitos, suas obras…Tudo passa. Deus fica.
( Publicado no Jornal DRT-PE NOTÍCIAS – Ano I – No.01 – Julho de 1976
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FISCALIZAÇÃO NA GUABIRABA
Auditor do trabalho sério, honesto e competente. Da fornada mais antiga, já nasceu estatutário, ao contrário de nós que iniciamos como celetistas. Sempre de bom humor, tem sempre na ponta da língua uma piada, um chiste, para todos quantos se aproximam dele. Mas o que teve que enfrentar durante uma fiscalização na Guabiraba, só tem graça para os outros. Ele mesmo não acha nenhuma.. Portando um processo de reclamação para anotação de carteira de trabalho, mandou-se para a Guabiraba disposto a cumprir sua tarefa.
Depois de subir e descer muitas ladeiras, pergunta daqui, pergunta dali, todo suado e esbaforido, chega finalmente ao endereço da reclamação. Era um Motel-Cabaré desses bem modestos mesmo, com um balcão meio para o escorado, mesas artesanais e tamboretes.
A radiola de fichas era a rainha da sala. Apenas ela dava a característica necessária ao modesto altar do rei Baco. Era fim de tarde e o proprietário vendo-o chegar sozinho, recebeu-o de má vontade como a adivinhar que aquela visita não só não lhe traria nada de bom como também iria atrasá-lo nos seus inúmeros afazeres antes do início das atividades do local.
Travou-se então o seguinte diálogo:
_Boa tarde, sou auditor do Trabalho, aqui está minha identidade.
_ E daí ?
_ Quero ver os seus livros
_ Onde é que se compra esse negócio de livro?
_ Meu amigo, isto aqui não é um estabelecimento comercial?
_ Não senhor. Isso aqui é negócio de “quenga”. Se quiser pode comer, beber,
transar…
O pobre auditor não insistiu. Guardou a identidade e deixou para voltar quando estivesse com mais paciência. Enquanto saía, ainda ouviu o proprietário falando para alguém dentro da casa:
_ Oxente…parece que esse aí não gosta de “quenga”….
(Publicado no AGITEPE – JORNAL – Ano I – No. 02 – Julho/agosto de 1989).
CAÇA AO MAREVAN
Certas “jogadas” do capitalismo selvagem nos deixam atônitos, quer pela insensibilidade, quer pela coragem com que são perpetradas. Existe um anticoagulante oral, sob a forma de comprimidos, fabricado pelos Laboratórios Glaxo do Brasil S/A, chamado MAREVAN. Dele se vale por exemplo, quem, como eu, é portador de válvula cardíaca.
Nós, os “valvulados”, o usamos por toda a vida, para nos protegermos de embolia cerebral ou pulmonar, tromboses, etc., em virtude de carregarmos essa peça mecânica, aórtica no meu caso. Freqüentemente fazemos exame de sangue – TPAE -, para ajustarmos a dosagem do medicamento.
Esse incômodo do exame não é nada, se comparado a um outro bem maior e mais estressante que é o da “Caça ao Marevan”. Por ser um medicamento barato, o fabricante simplesmente reduziu a quantidade de fabricação. Assim, é sempre com apreensão, que usamos as últimas caixas do produto, por não sabermos se vamos conseguir comprar outras. Recentemente passei pelo maior sufoco a procura do produto. Consegui, graças ao esforço do meu bom amigo José Cláudio, Presidente do Sindicato dos Proprietários de Farmácias, seis caixas do medicamento, o que me dá tranqüilidade para pouco mais de um mês. Não resta dúvida de que o preço do remédio é irrisório. A caixa com dez comprimidos custava Cr$ 14,00, quando comecei a usá-lo em março de 1990. Na última vez paguei Cr$ 193,00 pela caixa. Convenhamos que talvez não pague o valor da embalagem, mas, e daí? Vamos sacrificar nossas vidas em função de um desacerto entre fabricante e Governo? E quem tem autoridade para decidir sobre a vida?
(Publicado no Jornal do Commercio, do dia 29/12.1991 – Domingo).
PARTE IV – CONTOS
MATAR MALHADO
“Que importa uma batalha perdida, se sobrevive a coragem, que jamais cede, nem morre.”
(Georges Bernanos )
Permaneceu imóvel, a cabeça escorada à porta do mocambo. Seus pensamentos todos, pertenciam à tarefa desagradável que tinha de realizar. Matar Malhado… já se viu coisa mais danada? O bichinho era como se fosse gente da casa: desde que chegara, filhote, sempre fora a alegria de todos. Guardava o quintal, brincava com, o menino e nunca chorava fome. Nas noites de lua, corria pelo milharal, perseguindo vagalumes… Gozado, aquele “Malhado”.
Sinhá entregou-lhe o porrete em silêncio. Odiou a mulher naquele instante; saiu pisando duro e foi encontrar o animal perto do espinheiro. Sentou-se a uma pedra fronteiriça, tirou do bolso o embrulho de carne seca e falou o mais mansamente que conseguiu: “Dói muito, Malhado? Eu trouxe aqui uma comidinha procê, toma. O cão tentou agredi-lo, os olhos fuzilando de raiva, a boca escancarada. O mais que conseguiu foi erguer-se o suficiente para cair sobre o lado oposto, deixando a descoberto o buraco da bala, que estava preto e cheio de bichos.
Odiou o Coronel que havia dado o tiro, odiou o menino por só ter na vida Malhado, desprezou Sinhá porque nunca reclamava nada, odiou a Deus, porque nunca chovia.
Adoçou ainda mais a voz: “Sabe, Malhado, eu vou ter que te matar. Se fosse somente a bala, a gente cuidava da ferida, mas tu pegou a doença da raiva; se tu mordesse o menino, o que ia ser de mim? “O cão apenas olhava com olhos de inimigo, a figura que antes idolatrara. Não havia o menor lampejo de amistosidade naqueles olhos brilhantes de febre, nem o menor movimento em sua cauda inerte. Apenas olhava e arquejava, língua de fora.
Com a primeira paulada, cuspiu sangue e ficou batendo. A segunda foi mais segura, porque em sua imaginação, o colono a aplicava no Coronel que nunca fizera nada para melhorar sua condição de vida. Sendo no Coronel, houve terceiro, quarto e muitos golpes. O cão chegou a ficar sem forma.
Saiu cambaleando, completamente exausto, ganhou a estrada, dirigiu-se à Vila. Nem notou as nuvens compactas que desciam cada vez mais. Encontrou o barracão ainda aberto e havia cachaça…
Voltou à casa noite alta, completamente embriagado. Nem notou que estava ensopado pela chuva que caía desde à tardinha. Quedou-se no catre e apagou o mundo.
Na manhã seguinte não havia chuva, porém o céu continuava coalhado de nuvens escuras. No eito, dentre todos, um colono especialmente feliz. Afinal não havia chovido?…
(Publicado no jornal “O FERA” – Ano I – No. 3 – Abril/1965, escrito em Março/1962).
ZÉ CIÇO
Não houve sequer um simples puxão. De repente a linha ficou pesada e pronto. O pescador é por índole um pessimista. O primeiro pensamento de Zé Ciço foi de que a linha tinha enganchado e os outros riram sem esconder uma ponta de inveja: “deixa de ser besta, nego burro, tu num tá vendo que isso é uma arrraia mijona?… ela “colou”, Zé, deixa pra lá, amarra na jangada e entrega a Deus…”
Zé Ciço amarrou a linha ao mastro e pediu a Deus que se ela tivesse de quebrar, fosse bem embaixo para aproveitar a maior parte possível do aviamento. Cuidou das outras linhas que iam ferrando consecutivamente. Entre um Pampo, um Charel e um Pirambu, dava um toque na linha emperrada que cada vez esticava mais.
_ Qual era a isca, Zé?
_ Siri Mole.
_ Já batesse na linha?
_ Mas tá… ora se bati… se for peixe tá com a boca afolosada…
_ Se incomoda não, Ciço, com pouco a gente sai daqui. O cardume já tá se mudando, quando a gente puxar a jangada ela afrouxa…
O sol ficou a pino e começou a declinar e o bate-boca chegou ao auge, porque já era tempo de estarem de volta. Ninguém queria saber de regressar à noite, com o vento ameaçando mudar.
_ Vai-te pra merda, tu e teu peixe, Ciço. Tu num tá vendo que não se pode arrastar o bicho? A jangada nem se mexeu…
_ Mas eu senti ele mexer, Tadeu. Eu até pensava que tava enganchada, mas senti ele bulir… eu num saio daqui sem esse peixe…
_ Ô seus filhos da mãe, o vento num tá de brinquedo… a gente já tem mais de 30 quilos na jangada… corta essa porra e vamos dar no pé…
_ Tu é macaco velho, Zé Ciço, num tás vendo que Joca tá certo?
Sabe que vento vai dar? Vento Sul…
Existem convenções entre os jangadeiros, apenas compreensíveis para eles. Era natural que o velho Zé Ciço atendesse aos dois companheiros ante a evidência de uma situação de perigo ou que esses o obrigassem a ter juízo. Entretanto, no dia seguinte, quase à noitinha, os toros deram na praia, aterradoramente sós…
(Publicado no Jornal FASA – INFORMA – ano I – No. 04 – de 08/04/1964).
PARTE V – CARTAS<!–[if gte mso 9]> Normal 0 21 false false false MicrosoftInternetExplorer4 <![endif]–><!–[if gte mso 9]> <![endif]–>
ACUSAÇÕES
Quem se aventurar a entrar em sala de bate-papo pela internet e conversar com alguém das regiões Sul e Sudeste, encontrará boa vontade apenas enquanto a outra pessoa não descobrir que está conversando com um nordestino. A partir da descoberta, a conversa simplesmente morre por inanição. É que nossos irmãos do “Sul-Maravilha”, não acreditam na existência de vida inteligente por estas bandas.
O Jornal O Estado de São Paulo, publicou carta da leitora Maria Helena F. Sampaio, nos chamando de…”gente de costumes estranhos, vingativos, traiçoeiros e ladrões.” (sic), E a Câmara Municipal do Recife aprovou voto de repúdio ao “jor-nalista” Alex Gutemberg, colunista do Paraná, que nos descreve como…”imundos, ladrões, miseráveis e moradores de um mundo à parte, fruto de contínuas gerações de mamelucos e cafuzos, resultado de miscigenação desenfreada.”,(sic). Para arrematar, ainda nos acusa de eleger Inocêncio de Oliveira, Antonio Carlos Magalhães e José Sarney. Só faltou dizer que Lula é o culpado, porque é nordestino.
Assusta constatar que os ideais da suástica nazista não morreram, e que, a depender de gente assim, teríamos no Sul-Sudeste, campos de refugiados nordestinos ou quem sabe até, espertos fornos crematórios.
Publicado no Jornal do Commercio em 30/03/2007, Sexta-feira).
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A DANÇA DOS 400
A Companhia de cigarros Souza Cruz, demitiu 400 empregados antigos da sua fábrica do Recife. Nada demais, considerando a impessoalidade dos trustes, não fosse a forma e a época.
Em plena Páscoa, através de “cartinhas de amor” enviadas ao domicílio dos “sorteados”. Logo a empresa que anualmente convida autoridades locais para passarem um dia em hotel de luxo, com todas as mordomias possíveis, conduzindo-as, após o repasto, até Fazenda Nova para assistirem, muito bem assistidos, ao Drama da Paixão. Que religiosos que eles são!
Este ano resolveu convidar seus operários a um hotel chinfrim, não para se refestelarem, mas para receberem as suas rescisões contratuais.
Acostumados a verem – pela televisão, claro – os roqueiros dançarem no “Hollywood in Rock”, os operários desta vez também “dançaram”. Isto sim, é democracia.
(Publicado no Jornal do Commercio de 06/04/1994, Quarta-feira).
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AGONIA TRICOLOR
UM GRANDE CLUBE, NÃO MORRE DE REPENTE. ACABA-SE AOS POUCOS, GRAÇAS À INCÚRIA DOS SEUS DIRIGENTES.
MEU QUERIDO SANTA CRUZ, ENCONTRA-SE ATUALMENTE NA U.T.I., EM ESTADO COMATOSO , SÓ FALTANDO A “MORTE CEREBRAL”, PARA QUE DESLIGUEM OS APARELHOS.
O PROCESSO VEM DE LONGE… O PRIMEIRO SINTOMA FOI QUANDO UM PRESIDENTE ARRETADO” FINCOU A BANDEIRA TRICOLOR NO CÍRCULO CENTRAL, DA ILHA DO RETIRO. FALTA DE RESPEITO. COISA DE TORCEDOR PASSIONAL E ABESTALHADO. JAMAIS DE UM PRESIDENTE DE CLUBE. CONTRATOS IMBECÍS, INCAPACIDADE PARA AMEALHAR NOVOS SÓCIOS, IRRESPONSABILIDADE ADMINISTRATIVA. TUDO ISSO LEVOU AO ESTADO ATUAL. UM TIME PATÉTICO, UMA TORCIDA FRUSTRADA E UM GIGANTE DE CIMENTO ARMADO, QUAL IMENSA TARTARUGA DE PERNAS PARA O AR, INDEFESA, COMO A SIMBOLIZAR A INCAPACIDADE…
(Publicado no Jornal do commercio de 28/10/1997 - Terça-feira).
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AGRADECIMENTO
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A IRA DOS BONS
Os brasileiros, somos divididos em duas categorias: os pacíficos e os “Gersons”.
Os primeiros, aceitamos quase sem reclamar, os golpes que nos atingem.
Os segundos, por gostarem de levar vantagem em tudo, os autores desses golpes.
Pouco importa a estes, serem chamados de ladrões, contanto que lucrem. Eles sabem que as pedras que misturam aos grãos de feijão para que pese mais, pesarão de menos na mesa do aposentado que percebe salário mínimo.
Também sabiam que o expediente de diminuir vinte e cinco por cento na metragem do papel higiênico que fabricam, seria descoberto. Que importa, se em cada quatro rolos vão ganhar um?…
Já vi alpiste para pássaros (caro), ser misturado a xerém de milho (barato), mas não vi e nem quero ver, o dia em que os pacíficos se revoltarem. Nesse dia, Canudos será fichinha.
Leiam por favor a História, senhores “espertos” e aprendam que com a fome do povo não se brinca.
(Publicado no JORNAL DO COMMERCIO, em 24/11/2001 – Sábado).
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ARMAS
Todo marginal quando é preso, diz que adquiriu sua arma na “Feira do Troca”. Há lugares que só existem em nossa imaginação como a “Terra do Nunca”, o “ Prostíbulo das Normalistas” e a “Feira do Troca-Troca”. Se não, uma simples blitz policial nesse lugar, salvaria a vida de muitos.
Seria salutar que a população pudesse acompanhar a trajetória de uma arma apreendida, desde a sua captura, até sua destinação final. É que, sem descrermos da instituição policial, sabemos que, no varejo, tem muito bandido com o distintivo da lei
no peito. O que é uma covardia enorme.
(Publicado no Jornal do Commercio, do dia 09/03/2008 – Domingo)
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BOM–DIA RECIFE
O cronista Ronildo Maia Leite, em sua crônica semanal no Jornal do Commercio, transcreveu a seguinte carta a ele dirigida por mim:
Li sua crônica, na qual exalta com comovente lealdade, a ilustre figura do Prof. Potiguar Matos. Nada mais justo. O mesmo não se pode dizer no entanto, do que fez com os que o senhor. denomina de “Paulos”, quando se referiu ao jurista José Paulo Cavalcanti, como “ um dos raríssimos Paulos de caráter que conheço”, (sic). Não posso dizer o mesmo quanto aos “Ronildos”, pois, sendo o senhor o único que conheço, mesmo assim através do que publica, não posso fazer qualquer juízo de valor. Como Paulo, pai de Paulo e avô de Paulo, fico só imaginando o que estará pensando o Apóstolo Paulo, a propósito de sua afirmação. Será ele um dos “raríssimos” ? Já pensou na sua (dele), responsabilidade frente aos Coríntios, por exemplo ?
Será que o sucesso lhe dá esse direito, ou seria vingança contra alguém que meteu-se com a gordinha sempre citada nas suas crônicas ? Será que algum Paulo a conquistou ? Só o seu inconsciente poderá responder. Burrice não acredito pois nas suas crônicas sempre muito bem escritas, o snr, se apresenta como guerrilheiro leal, poeta boêmio e sedutor de gordinhas.
Não iria arriscar-se a chatear grande parte dos seus leitores, nem muito menos ofendê-los. Todos sabemos que existem os José Paulo Cavalcanti e os Paulo César Farias, por que generalizar ? Agora, respeitando sua grosseira sinceridade do “raríssimos”, reservo-me o direito de pensar: Que tem chifre na jogada tem…ora se tem….
(Publicado no Jornal do Commercio do dia 21/04/1996)
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CAÇA
Está novamente aberta a temporada de caça ao voto. Os políticos agem como os estelionatários, em lugar de arma, a flor. Estes, “douram a pílula” e nos fazem entregar nosso dinheiro sorrindo. Aqueles, sorriem, bajulam, prometem, e lhes damos nossos votos, cheios de esperança. Mas, ruim com eles, pior sem eles. Melhor a democracia que o tanque de guerra. Melhor o engodo do que o revólver. Afinal, como disse o brilhante Antoine Du Saint Exupérry em um dos seus livros: “ Que importa o leão, se a verdade das gazelas é serem abertas por uma patada à luz do sol…”
Jornal do Commercio, 01.08.2008 – Sexta-feira
CAMPEONATO
Os sudestinos fazem um campeonato preparado especialmente para ser ganho por eles. Usam como coadjuvantes as equipes do sul e de Minas Gerais e como “extras” os do Norte e do Nordeste.
Evidentemente que o rebaixamento é para ser usado contra os pobres dos “extras” que à míngua de apadrinhamento, só participam de década em década. No entanto, às vezes, as coisas saem um pouco erradas como agora, quando o Palmeiras, o Botafogo e a Portuguesa, com seus times de pernas-de-pau, foram os últimos colocados. Fazer o quê? Virar a mesa com o poder da Máfia do Clube dos 13 e bênção da Globo? Ou será o contrário? Ou é a mesma coisa?
(Publicado no Jornal do Commercio, de 23/11/2002 – Sábado)
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COMPESA / CELPE
Mente quem disser que a gente não aprende muita coisa lendo jornal. Recentemente, em reportagem do JC li que finalmente, o reservatório de Tapacurá estava cheio, a pique.
Entrevistada, a diretoria da COMPESA informou que por segurança, abriria uma comporta para jogar água fora. Infelizmente, junto com a água, o diretor do órgão estadual jogou fora também nossa esperança de fim do racionamento.
Foi aí que aprendi que é muito melhor para a empresa, derramar o “precioso líquido”, do que vendê-lo. Entendi também a má vontade da COMPESA em reparar vazamentos na via publica. Consertar para quê? Há vazamentos demais !,
Será por isso que sua irmã, a CELPE deixa tanto poste de iluminação pública aceso, durante o dia ?
Entendi, enfim, que preciso rever urgentemente, meus conceitos sobre privatização.
(Publicado no Jornal do Commercio de 10/06/1997 – Terça-feira)
EFICIÊNCIA
Antes Dos fogos pela passagem do ano, chega o carnê do IPTU/1997. Os pupilos do Dr. Roberto Magalhães são eficientíssimos. Na noite anterior ao desfile do Galo da Madrugada, o poste de iluminação publica fronteiro ao No. 87, na Rua do Chacon, em Casa Forte , onde residimos, apagou, para alegria dos abutres de noite, os assaltantes.
Embora a CELPE cobre taxa de iluminação pública, é à Prefeitura que se deve acionar para consertos. Há número de telefone para isso – 3441-5844, mas não atende, sempre ocupado.
Após dias consecutivos de vãs tentativas, logramos êxito. Pelo menos atenderam. Depois de transferirem a linha por três vezes, deixamos reclamação com uma senhora, que forneceu número de processo. (0.602.469.097) e informou que em 20/30 dias, consertariam. Antes, nos fez ir ao meio da rua, para anotarmos todos os números pintados no poste. Até agora, nada do conserto. Soube por vizinhos também prejudicados, que eles próprios haviam passado pelo teste de paciência e também tinham números de processo anotados.
Talvez os eficientes técnicos da Prefeitura, tenham dificuldade em achar essa tal Rua do Chacon. Posso ajudá-los: perguntem onde mora o escritor Ariano Suassuna, referência da Cultura Pernambucana. Até um estrangeiro vai saber informar. Se mesmo assim continuarem as dificuldades, é só ligar para o Palácio do Campo das Princesas e perguntar onde mora o Governador Miguel Arraes. Ah, e o IPTU? Está rigorosamente em dia. A ilegal Taxa de Bombeiros, também.
( Publicada no JORNAL DO COMMERCIO em 18 e 28/03/97 – Sexta-feira).
FESTAS
É constrangedor ver que a Semana Santa transformou-se em uma época apenas de festas.
Ninguém mais pensa no sofrimento de Cristo, mas sim nas atrações de Gravatá ou nas bandas e cantores que vão animar a “festa”.
Na sexta-feira Santa, o rebolado aumenta e a bebida e as drogas correm soltas.
Mais constrangedor ainda é ver-se os políticos travestidos de bons cristãos, “prestigiando” a Procissão dos Passos, a Paixão de Cristo de Fazenda Nova ou subindo o Morro da Conceição no dia da festa de Nossa Senhora.
E ainda dizem que os fariseus foram extintos.
(Publicado no Jornal do Commercio do dia 20/03/2008 – Quinta-feira)
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FURACÃO
Já sabíamos que éramos governados por um Executivo que paga mensalões e por um Legislativo que cobra mensalões. Agora, essa tal de “Operação Furacão”, nos informa que o Poder Judiciário, que é regiamente pago para dirimir nossos conflitos e defender nossa Constituição, vende sentenças. Pior que um furacão desses, só mesmo um tsunami.
Policiais dizem terem medo de viajar de ônibus usando as suas fardas, temendo aos marginais e que quando saem dirigindo um carro, escondem as fardas debaixo dos bancos, apavorados com os bandidos.
Logo eles que são pagos, treinados e portam armas, justo para nos defenderem. Mas o pior mesmo é dizerem que precisam ser amigos dos seus vizinhos que são marginais, para não morrerem.
Ora, amizade pressupõe troca de favores… Depois disso, só nos resta mesmo o dilúvio.
(Publicado no Jornal do Commercio de 25/04/2007- Quarta-feira)
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GRATUIDADE DE TRANSPORTE
Recentemente, os mentores do transporte urbano em nossa cidade, decidiram cortar a gratuidade dos deficientes físicos, alegando que alguns deles são ricos, e, portanto, não necessitariam andar de graça.
Acreditam, esses ilustres dirigentes, que hordas de deficientes ricos andam em coletivos lotados “por esporte”. É constrangedor ver alguém arrastar o corpo, carregando muletas ou bengalas, pelo salão de um ônibus cheio, até chegar à cadeira solitária a ele destinada, junto à porta da frente, geralmente ocupada por alguém sadio e insensível. Realmente, é um número imperdível. O dr. Paulo Murilo necessita ser aconselhado a assisti-lo e como presidente da EMTU, pode fazê-lo de graça. Militares andam gratuitamente nos coletivos, subindo e descendo pela porta dianteira, sendo que em bairros de muitos quartéis, como Casa Forte, andam aos batalhões, desrespeitando a legislação que limita o seu número a dois por veículo. Por que não recebem vales transporte e sobem pela porta traseira, como qualquer deficiente físico?
(Publicado no Jornal do Commercio do dia 23/09/92 – Quarta-feira
GARAGEM
Um dos melhoramentos anunciados para o nosso aeroporto dos Guararapes, só beneficia a quem o explora. Refiro-me ao monumental Edfício-garagem, localizado a algumas quadras do salão principal. Quem é deficiente físico como eu, sofre.
A primeira vez que lá estive, perguntei qual seria o melhor lugar para estacionar, por dirigir carro adaptado e locomover-me com dificuldade, fazendo uso de uma bengala. Informaram-me para estacionar na proximidade do elevador. Só que era uma informação falsa, pois não existe elevador. Tive que praticamente me arrastar por uma rampa interminável, coberta por um oleado bastante escorregadio, em virtude da areia e da lama que os passantes deixavam. De lá para cá, já voltei diversas vezes e a única melhoria encontrada foi o emborrachamento da maldita rampa, verdadeira Muralha da China, terrível de descer, quase impossível de subir com bagagens.
Se ao menos eu fosse jovem e não fosse portador de uma prótese de válvula cardíaca, quem sabe, tirasse de letra. Mas como não é o caso, resta-me criticar a incúria da Infraero e do Governo.
(Publicado no Jornal do Commercio de 01/10/2003 – Quarta-Feira).
GENTE MUITO ALEGRE
Até há pouco tempo, a Rua do Chacon, em Casa Forte , era uma rua calma e sossegada. De uns meses para cá no entanto, instalou-se no número 78 da referida rua uma boate freqüentada por gente alegre, muito alegre mesmo, porém surda. Nos finais de semana o som é tão alto, que a infeliz vizinhança não pode dormir, ler, ver televisão e sequer conversar, a não ser aos gritos. E olhe que se trata de uma rua estritamente familiar. Tanto que nela residem o escritor Ariano Suassuna e a família do saudoso Governador Miguel Arraes. Como o DIRCON, acionado não resolveu, valho-me desta tribuna, a única de que disponho, na esperança de que alguma assessoria de imprensa leia esta matéria. É a esperança final de não ter que ingressar em juízo.
(Publicado no Jornal do Commercio em 26/09/2005- Segunda-feira)
IDÉIA DE JERICO
Mesmo o ilustre doutor José Paulo Cavalcanti Filho, tem seu dia de idéias de jerico.
Leitor de suas crônicas semanais, fiquei estarrecido com sua proposta de fundir Náutico e Santa Cruz.
Antes de terminar a leitura já estava completamente encalombado, nítido sinal de intoxicação….
Embora Tricolor de nascença, respeito e admiro o Náutico e o Sport, porque a grandeza do meu clube, está na razão direta do valor dos adversários. Agora, eles lá e eu cá.
Por que o Dr. José Paulo não funde seu clube com o saudoso Santo Amaro (hoje Recife), e o intitula “Clube Náutico das Vovózinhas”? Ou então, por que não chama de volta o Sport já que este foi formado por ala rebelde do alvirubro ? Pode até unir-se ao Ferroviário do Nordeste…
São mil opções, mas não toque no meu Tricolor do Arruda. Afinal, poeira é poeira, e aristocracia é aristocracia. E respeito é bom e eu gosto.
(Publicado no Jornal do Commercio de 17/10/1997 – Sexta-feira)
JESUS DE SARAMAGO
Li centenas de livros, dos clássicos aos folhetins. Gosto dos que apontam o sentido da vida. Acabo de ler “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, do escritor português, José Saramago.
Perdoem-me os beatos mas livro algum me fez pensar tão seriamente em um Jesus Cristo revestido de humanidade. Divino sim, Filho de Deus, sim, porém humano, posto que, revestido da carne.
Saramago faz pensar sobre o bem e o mal, que, segundo ele, não existem. Apenas um é a ausência do outro.
Exorciza magistralmente o fantasma da culpa. Antes dele, Ortega y Gaset, dissera: “Eu sou eu e minha circunstância.” Ou seja, eu sou eu e o que fez com que eu fosse o que sou. Circunstância, no lugar da culpa, do livre arbítrio. Leitor bitolado, queimaria o livro. Doutores da Igreja o lançariam ao Index. Volto à sua leitura, agora aos bocadinhos, como quem degusta fino licor.
(Publicado no Jornal do Commercio de 13/11/1997 – Quinta-feira).
NAZIFICAÇÃO
Excelente O Artigo de Juracy Andrade “Discriminação e Mistificação”, no JC de 26.11.94, à página 03, do primeiro caderno.
Ouvia falar porém jamais imaginei, fosse tão irracional a argumentação dos sulistas, que discriminam os nordestinos.
Dizendo-se quatrocentona e descendendo do “Caçador de esmeraldas”, Fernão Dias Paes Leme, a paulista Maria Helena Sampaio, publicou carta n” O Estado de São Paulo, nos chamando de “gente de costumes estranhos, vingativos, traiçoeiros e ladrões” (sic). Nem vou lembrar que as “esmeraldas” que o ascendente de Dona Helena caçava, eram os pobres índios, que seriam vendidos como escravos, porque já naquela época, São Paulo não podia parar.
Preocupa-me entretanto, a intolerância de madame, porque sempre haverá nordestinos explorados, “arribando” para o “Jardim do Éden” paulista, onde manam Leite e Mel – da Parmalat. Assusta constatar que os ideais da suástica nazista não morreram e que a depender de gente assim, teríamos no Sul, campos de refugiados nordestinos ou quem sabe até, espertos fornos crematórios.
(Jornal do Commercio – 10.12.1994 – Sábado).
PAGAMENTO
Tomara que o prefeito João Paulo acabe logo a tarefa que deve estar tomando todo o seu tempo, qual seja, a confecção de sua misteriosa fantasia para o carnaval.
Quem sabe desincumbindo-se de tão estafante tarefa, tenha tempo para liberar o pagamento dos salários dos alfabetizadores do Programa Nacional de Alfabetização.
Informa o Governo Federal que já enviou a verba desde o inicio do segundo semestre do ano passado, mas, até aqui, a prefeitura não pagou a ninguém, sempre alegando que “ faltam algumas assinaturas”. Como diria o Roberto Carlos…”São tantas assinaturas…”
É verdade que é muito dinheiro, pois cada alfabetizador ganha R$ 120,oo mais R$ 7,oo por aluno, podendo chegar até a astronômica soma deR$ 295,oo…. E isso todo santo mês…imagine…
( Publicado no Jornal do Commercio no dia 22/01/2007 - Segunda feira).
<!–[if gte mso 9]> Normal 0 21 false false false MicrosoftInternetExplorer4 <![endif]–><!–[if gte mso 9]> <![endif]–> PARABÉNS
As dezesseis primeiras linhas da crônica de Flávia Gusmão na Revista JC, do dia 11 do corrente mês, foram magistralmente complementadas pelo artigo de Adriano Oliveira no JC de quinta-feira última, com o título “Ivete Sangalo e Maria da Vila”, Flávia coçou a ferida, mas Adriano escavacou-a até o fim. Lembrei-me da definição de Edward Burn sobre o movimento que instituiu o Diretório na França : “ A Revolução francesa foi o clímax de um século de oposição a uma aristocracia decadente.”
Cada vez é mais evidente que os que detêm gestão de mando em nosso país, estão brincando com fogo. Os sinais são tão nítidos, que até os mais obtusos já percebem. Os bem nascidos que tratem de deixar de torcer o nariz e cuidem de abrir os olhos para as necessidades da “mundiça”.
No último domingo, a torcida do Sport aplaudiu o técnico do Santa Cruz na Ilha do Retiro. Esse inusitado gesto de boa vontade partindo de uma torcida normalmente ácida, fez o jogo transcorrer em clima de harmonia e nesse dia não houve confronto das torcidas após a partida. Pena que só a crônica esportiva noticiou o fato.
Parabéns, Flávia, por levantar a bola. Parabéns Adriano, por marcar o tento. E parabéns ao JC por tê-los como articulistas.
(Publicado no Jornal do Commercio do dia 19/02/2007 – Segunda-feira).
PARAÍSO
Em filme a que assisti há alguns anos, as pessoas que morriam ficavam em um lugar cheio de lanchonetes sortidas com todas as guloseimas possíveis e podiam comer e beber à vontade, pois ali ninguém engordava. E tudo era grátis e servido por gentis atendentes.
Essa, a visão do diretor do filme a respeito do que seja céu: comer de graça sem engordar. Para mim, céu é outra coisa. Paraíso é portar no bolso um cartão corporativo do Governo e com ele poder pagar tudo: da tapioca incrementada, ao material de construção. Do supermercado, aos embalos de sábado à noite. Mas vou ficar na vontade, pois nem sou filho de Presidente, nem Ministro que luta contra as desigualdades… Taí…
(Publicado no Jornal do Commercio do dia 14/02/2008 – Quinta-feira
PERIGO
O neurologista de plantão de um hospital particular aqui do Recife, foi muito claro ao me atender na emergência por uma crise miastênica. “Se você chegasse aqui com uma bala na cabeça, eu o operaria numa boa, mas, desse negócio de miastenia, eu não entendo nada”. E não entendia mesmo, embora fosse um veterano. A miastenia gravis é uma doença auto-imune, não contagiosa, não hereditária, porém crônica. É uma das famosas “companheiras de viagem”. Ataca os terminais nervosos dos músculos voluntários como os oculares, da mastigação, deglutição, fala, e até da respiração, podendo neste último caso ser fatal se o paciente não for entubado durante a crise.
O magnata Onassis não conseguiu livrar-se dela. O mestre enxadrista Mequinho também não. Ela torna uma maratona para os que a têm, descer um lance de escada. Mas o maior perigo é o desconhecimento dela por grande parte dos médicos, pois existe uma gama enorme de medicamentos e procedimentos médicos vedados aos miastênicos e que podem provocar-lhes a morte.
Os portadores devem andar com uma lista no bolso dos medicamentos e procedimentos proibidos.
(Publicado no Jornal do Commercio, de 14-07-2008, segunda-feira, coluna : “Opinião”).
PROVA
Somente como muita falta de respeito à pessoa humana, admite-se o teste físico aplicado dia 24 pelos Correios, aos candidatos aprovados na prova escrita, para o cargo de carteiro. Nem os atletas, nem os candidatos à Polícia Civil, nem os acrobatas de circo, são testados assim: Corrida de 12 Kms. Contra o relógio, eliminando quem correr menos de dois mil e tantos metros. (Prevenção contra cães mal intencionados?) Salto a distância (a cidade tem tantos buracos assim ?). Levantamento de peso (vai ver alguém resolve despachar uma geladeira pelo correio). E muitos outros, todos absurdos, para uma população desnutrida e portanto com poucas condições físicas. Porém o mais escrachante foi o de barra fixa, para homens e mulheres, (carteiro precisa ser pingente ?) Esse exercício foi o primeiro e muitos foram já eliminados. Culpa da escassez de emprego ? Se for, como disse Breno, comandante gaulês que conquistou Roma:- Ai dos vencidos.
Jornal do Commercio – 27/08/2008 – Quarta feira.
RAZÃO
Embora admirador e ex-vizinho de Ariano Suassuna, não posso deixar de dar razão ao leitor Holdack Veloso quando, através de carta publicada ontem, 22/06/08, critica o escritor pela entrevista que deu na TV, dizendo que se fosse o juiz do jogo Sport e Corínthians, roubaria deliberadamente em favor do seu time.
Como Secretário de Estado ele jamais poderia ter-se deixado levar pela emoção. É a liturgia do cargo, que não permite separar a pessoa civil, do ocupante do cargo.
Direito e ética são círculos que se tocam, nunca se repelem. Fez-me lembrar o gesto de um ex-presidente do Santa Cruz, em pleno exercício do cargo, que fincou a bandeira tricolor no centro do campo do Sport, após vitória que valia um título.
Em vez de vibrar, pensei no que sentiria se o presidente de um clube congênere fizesse isso no Arrudão e em vez de orgulhoso, senti-me humilhado. “Não basta que a mulher de César seja honesta, tem também que aparentar ser”. E respeito é bom e todos nós gostamos.
(Publicado no Jornal do Commercio de 26/06/2008 – Quinta-feira).
RECADASTRAMENTO
O Governo Federal adora infernizar a vida do servidor público. Atualmente está os obrigando a um re-recadastramento, alegando que, em função da crise econômica, necessita cortar da folha de pagamento, os que recebem indevidamente.
Quer dizer que se não fosse a crise econômica…
Em julho passado, deu atestado de incompetência ao seu Ministério da administração, encarregando o Banco do Brasil S/A de recadastrar os aposentados. Em novembro resolveu tomar a si a tarefa (será que o BB trabalhou de graça?), de obrigar os jovens e sadios aposentados a se re-recadastrarem. Se o problema é economizar, por que não cortar da folha de pagamento, os parentes de D.Fernando II?
São tantos…
(Publicado no Jornal do Commercio de 26/09/2005 – Segunda-feira)
RESPONSABILIDADE
Não se trata de saber quem tem razão, se os médicos ou o Governo, mas de saber quem é o responsável pelo crime de omissão de socorro, praticado contra a camada mais pobre da população. Quando enfrenta um vestibular dos mais concorridos, mesmo sabendo que terá dificuldades em conseguir emprego ao terminar o curso, tudo pelo seu ideal, esse médico merece o meu respeito. Quando é retirado do recesso do seu lar de madrugada, para atender a um chamado, enfrentando os perigos da noite, esse médico merece o meu respeito. Mas quando um profissional da medicina, deixa seu plantão em uma emergência repleta de pacientes, para reivindicar o que quer que seja, esse não merece o respeito de ninguém. Não há salário defasado nem condições ruins de trabalho, que justifiquem o sacrifício de vidas humanas. Alegam que as péssimas condições de trabalho, por vezes, os obriga a escolher quem vai viver e quem vai morrer. Terrível! Mas um ou outro ainda se salva. Abandonando-os, morrem todos. Temos que gritar nossa indignação, sob pena de sermos também omissos expectadores desse crime.
Jornal do Commercio de 03/09/2008 – Quarta-feira
RUA DO CHACON
Não faz tanto tempo assim, era uma rua pacata. Tão calma que até Ariano Suassuna a elegeu para morar. Diversos de seus personagens, l[a nasceram. Calçamento não havia. Havia sim, cadeiras nas calçadas e conversas de vizinhos, que
De repente modernizaram-na: calçamento, comércio e uma escola maternal, “O Reino da Carochinha”, instalou-se em uma rua, que, acostumada ao “Reino da Pedra”, estranhou. Hoje o que se vê nas horas de pique de chegada e saída das crianças, são engarrafamentos, batidas e um barulho tão grande que, dizem os fofoqueiros, faz. o Dr. Miguel Arraes que é vizinho das “Carochinhas”, ter saudade dos decibéis dos carros de som dos seus comícios. Até o caminhão que entrega gás, aparece quase sempre cedíssimo, acordando com suas timbaladas os moradores que ainda dormem, objetivando não engarrafar ainda mais o trânsito na pobre rua. Nem vou falar no imponente “Edf. Senzala”, que sopra toneladas de gás carbônico nos quintais das primeiras casas da rua, quando liga seu imenso gerador a Diesel.
Lembrarei apenas a pacata Rua do Chacon de pouco tempo atrás. Afinal, não faz tanto tempo assim.
SOBRE A TRAGÉDIA DE NOVA ORLEANS
Permita-me discordar. Os miseráveis, as crianças e os doentes dos povos trucidados pelos EE.UU., também não.
Sabia que sendo normal nascerem mais meninas (matrizes), do que meninos, nos anos que se seguem a uma guerra, nascem mais meninos, nos países envolvidos no conflito? São leis da natureza que abismam nossa insuficiente compreensão. Há sempre um equilíbrio na harmonia universal, como se os pratos de uma balança invisível, tivessem que estar sempre nivelados. Agora, a contabilidade desse acerto de contas, é matéria que nem os filósofos nem físicos e nem os sábios, dominam.
Na mesma hora em que li sua crônica, decidi lhe escrever, como se a essência dos mártires dos EE.UU. clamassem por uma voz. Sei da dimensão do meu pecado por ser tão pretensioso, mas foi o que senti. Por favor não me leve a mal, porque a intenção foi boa.
SOFRIMENTO
É preciso muita falta de caráter para roubar o S.U.S. Principalmente se se é político ou funcionário público, com sua feira garantida e seu plano de saúde em dia.
Como se pode acompanhar pela imprensa o sofrimento do povão, esperando meses por uma consulta ou um simples exame, que poderia salvar uma vida e não emocionar-se? É certo que para algumas pessoas, a medida do ter, não enche nunca, mas valer-se da vida de inocentes, para custear o próprio bem estar, ultrapassa todas as medidas.
(Publicado no Jornal do Commercio de 21/06/2008 – Sábado).
TAMARINEIRA
TAXA
TROCO
Quando vende soro por leite, está se lixando para a desnutrição de crianças, que por vezes só têm a merenda escolar para nutrir-se. Esses infelizes chegam até a “fabricar” remédios de farinha, para lucrarem alguns reais com a possível morte de um semelhante.
A única diferença deles para o assaltante homicida é que o assaltante escolhe sua vítima e esses “Gersons” matam por atacado e sequer vêem a cara de quem matou.
Revoluções sangrentas como a Francesa e a Russa, tiveram como motivo a fome do povo. Será que isso nos diz alguma coisa?
(Publicada no JORNAL DO COMMERCIO do dia 20/05/2008 – Terça
VOTO INTELIGENTE
Os sudestinos não admitem a existência de vida inteligente, fora do eixo Rio-S.Paulo-Brasília. Após o Primeiro turno da última eleição, me rendi e cheguei à conclusão de que eles estão certíssimos.
Somente por muita argúcia, admite-se a eleição de figuras do porte de um Clodovil Hernandes, Frank Aguiar e Paulo Salim Maluf. Imagine se em vez de dançar com uma música imaginária e vestida com tão pouco apuro, aquela Deputada-dançarina que comemorou a absolvição de um seu colega acusado de corrução, dançando, fizesse isso ao som da voz do sambista Frank Aguiar, usando um modelito exclusivo da Grife Clô Hernandes… Quanto a Maluf, eles devem ter pensado assim: chega de amadores enrolados com mensalões, sanguessugas, dossiês e afins. Vamos colocar lá o nosso bom e velho Paulo Maluf, altamente qualificado, com competência reconhecida até pela própria Polícia Federal.
Essa a visão abrangente do eleitor sudestino. A verdade é que nós iremos pagar a farra.
(publicado no Jornal do Commercio do dia 12/10/2006 – Quinta-feira).




Tio, estou degustando seu livro, devagar, saboreando cada página…
Um grande beijo, no coração tricolor
Adorei o “Quando leres esta carta”. Como pernambucano, lamento não conhecer o conterrâneo até hoje, quando o descobri na Internet.
Flávio Tiné, gravataense, poeta bissexto, cronista insistente e romancista frustrado.
tine@estadao.com.br
http://www.tine.blog-se.com.br
o texto que titula o livro é simplesmente belíssimo.
só quem viveu em Recife e frequentou a chacon especificamente , sabe do valor do livro. parabéns cara , eu sempre soube e percebia que você é extremamente
fértil , mas não tinha a menor idéia de tanto..
orgulha-me mostrar o livro e dizer esse cara , eu convivo com ele, lado a lado.
obrigado por fazer parte desse seleto grupo que lhe admira.
evandro xavier..
Texto carta enviada pelo Dr. José Paulo Cavalcanti Filho, a respeito do livro:
“Sobre o livro, gostei sem restrições. A começar da citação de Caeiro, que inclusive está em uma biografia de Pessoa que escrevo há quase 6 anos, gostei do estilo, das crônicas, do bom humor, do espírito público que transparece. Só não entendo como você não escreve, hoje, nos grandes jornais. Seja como for, ainda é tempo.”
Muito bom… Lerei nessa semana.