DIÁRIO DE BORDO

13 fevereiro 2009

Quinta-feira – 12 de fevereiro de 2009 – Recife.

Choveu muito hoje pela madrugada e um pouco pela manhã. Serviu ao menos para amenizar o calor que já estava torrando o juízo das pessoas. Essa parte do ano aqui no Recife é como estar no Deserto do Saara. A água já sai quente (bastante esperta mesmo), dos canos e é quase impossível tomar um banho frio, a não ser noite alta. Durante todo o dia o sol esquenta as paredes e à noite elas estão  emanando um calor insuportável. Só melhora no mês de Maio e passa então a fazer frio até agosto, mais ou menos. Estamos na semana ante pré carnavalesca e os jornais só falam na festa de momo. Já vive-se, já sente-se no ar, o carnaval. Os negócios, as consultas médicas, tudo é deixado para depois da folia. É marca registrada do povo brasileiro essa irresponsabilidade sadia, se é que pode existir um adjetivo depreciativo sadio. Como tenho feito nos últimos dez anos, pelo carnaval, vou viajar: da sala para o quarto, do quarto para o banheiro, deste para o computador, depois para a televisão e por aí vai. Não posso dizer que a solidão as vezes não me deprima, porque isso não sería verdade. Deprime sim. É muito triste assistir a um bom filme ou programa de televisão e não ter com quem conversar a respeito. Ouvir uma música e não ter a quem perguntar, não é divino ? Mas a gente não tem a vida que quer, mas a que pode ter. Nunca deixarei  de citar o filósofo Ortega Y Gasset quando o mesmo diz :  “…eu sou eu e a minha circunstância “.  Nunca li frase mais importante do que esta na filosofia, porque ela é de uma felicidade extraordinária. Assim, levo a vida que as minhas circunstâncias permitem que eu viva, e agradeço todas as noites ao meu Deus, ter permitido que eu vivesse por mais um dia.

Paulo Bezerra.


ESPANTALHOS

3 fevereiro 2009

Engana-se quem pensar que os espantalhos estão fora de moda. Eles estão presentes na vida diária, principalmente na política brasileira. A começar do Palácio do Planalto. Lá existe um, vestido de mulher, que fala, ri, (pouco e formalmente), briga, xinga, afaga criança e é uma sombra colada ao Presidente Lula. Está presente a toda solenidade de inauguração, até se for a de um chafariz de ponta de beco. Atende pelo nome de Dona Dilma. Atualmente faz curso de paz, amor e tricô. Na cidade do Recife existe outro. Magro, alto, bigode de cantor de gafieira, praticante de ioga e vegetariano. Foi Prefeito até o ano passado e não sabe se ausentar mais da edilidade. Até que tentou, andou por Brasília oferecendo-se para espantar os pardais do governo, mas ficou só na tentativa. Voltou e agora vive dando entrevistas a respeito de sua misteriosa fantasia para o próximo carnaval. Afirma que não revela do que vai fantasiar-se de jeito nenhum, frustando a sociedade pernambucana, que está “interessadíssima” no assunto. Agora, espantalhos mesmo, vão aparecer é no próximo desfile do galo da madrugada. Candidatos de todo matiz e cor, BBBs eliminados, Prefeitos, Governadores, Senadores que durante todo o ano nem ligam para o Recife, vereadores eleitos e os derrotados, todos lá, prestigiando o espantalho maior, que é o próprio galo. E o povão gostando, derretendo ao sol do meio dia e abobalhado olhando para os espantalhos-celebridade lá no alto dos palanques climatizados, bebendo wisky doze anos às nossas custas. Espantalhos ? Espantalhos somos nós…taí. Paulo Bezerra – (02/02/09) – Recife.


QUEDA DA CAMA

30 janeiro 2009

Toda  queda é humilhante mas a tal da queda da cama é triste. A minha cama já é por si bem alta e como tenho hérnia de hiato (refluxo), o médico mandou colocar escoras de forma que a cabeceira ficasse 15 centímetros mais  alta do que os pés.  Além disso,  uso uma medicação chamada Mestinon, que causa muita secreção brônquica. Para evita-la tenho que usar um travesseiro ortopédico, que é de borracha rígida,  ondulada,  para massagear a coluna. Ele é bastante largo e começa na altura da cintura, indo até a cabeça, elevando-se como se fosse um tobogã. Por cima dele ainda coloco dois travesseiros comuns. Com toda essa parafernália, fico com o corpo bastante alto, sendo comum  escorregar e ficar as vezes com parte das pernas para fora da cama, durante o sono. Imaginem a altura que o meu corpo fica no alto dessa montanha que não é firme. Ao lado da cama, sobre um criado mudo, fica um rádio relógio onde, por hábito, vejo a hora todas as vezes que me acordo, seja a que horas for. Noite passada, depois de um dia cheio, inclusive com médico e computador até altas horas, não notei que o travesseiro ortopédico estava muito perto da beirada da cama. Só quando estava deitado, mas aí nem tinha essas forças todas para me levantar e tomar providências. Dia amanhecendo, me acordei e me virei para ver quantas horas ainda tinha de sono. Só que virei já para fora da cama e desabei meus 115 kgs. bem pesados sobre o osso do joelho.   Fiquei uns dez minutos no chão, com o lençol enrolado no corpo tolhendo meus movimentos, morrendo de dor no joelho. Agora posso dizer que sei como se sente um bagre velho enrolado na rede de pesca, sem poder mover-se. É horrível…
 
Paulo Bezerra – (30.01.2009).


CRISE ECONÔMICA

11 janeiro 2009

Tenho parentes morando em Portugal e  sou sempre informado a respeito dos efeitos da crise econômica naquele país e no resto da Europa. O Governo Português está preocupadíssimo com o alto índice de desemprego e o aumento da criminalidade.
Tanto que está querendo entre outras medidas, construir  um novo aeroporto o que geraria  empregos. A oposição não concorda, alegando que a obra serviria apenas para empregar africanos e caboverdenses, pois o português médio, tendo, no mínimo o segundo grau completo, não toparia trabalhar na construção civil como operário. Enquanto isso, aqui no “país da marolinha”, o nosso Presidente incentiva os brasileiros a consumir e endividar-se. Com tal conselho, a única preocupação que temos é de saber mais a respeito do novo plantel do Big Brother Brasil, da rêde Globo. Taí…


PRÓTESE – (Parte IV)

11 janeiro 2009

Durante todo o tempo em que estive na UTI, sempre olhei desconfiadíssimo para aquela borracha que saía da minha barriga. Entendia que aquilo me ia ser tirado e que não sería nada bom. Dito e feito. Passadas as 48 horas obrigatórias no purgatório, chega finalmente a manhã em que eu ia para o quarto. Meu médico chegou risonho e ao ser informado de que eu não quisera me alimentar de nada, me deu o ultimato: Ou come ou não sai. Era a primeira alimentação desde a véspera da cirurgia. Mesmo sem querer, engoli a papa, o leite e o pão, submetendo-me à chantagem do médico. Logo após ele aproximou-se da minha cama e segurou o dreno que saía da minha barriga, balançando-o para despregar. Dor indizível, náusea, ânsia de vômito, parecia que tinha um trator dentro de mim, mexendo-se e eu nada podia fazer. Dei um grito de dor, de susto, de horror. E o algoz: “Como você  é mole…” Arretei-me: “Mole porque não é você que está sentindo isso”  E ele:” Ah, sei, você queria estar aqui, tirando isso de mim… “ Isso mesmo, respondi indignado. O médico amarfanhou um lençol e jogou no meu rosto, ao mesmo tempo em que puxava o dreno, dizendo: “Você está bom, já está dizendo graça”… Junto com o dreno, saiu um jato de sangue, molhando o que estava pela frente. O choque foi tal, que ele  ponteou as bordas do buraco que ficou, a cru e eu nada senti. Enquanto isso uma enfermeira tirava o cateter de minha veia cava e também dava pontos e eu só sentia como se uma formiguinha estivesse me mordendo no local, nada mais. Quando meu filho foi autorizado a entrar, trazendo minha roupa, vesti-a num segundo. Sentei na cadeira de rodas e fui levado de volta, pelos mesmos corredores, rumo à vida.
 
Paulo Bezerra – (10/01/2009)


PRÓTESE– ( PARTE III)

10 janeiro 2009

Aos poucos vou tomando consciência das coisas. Estou cheio de tubos, borrachas, drenos, um cateter na veia cava, um pouco abaixo do prescoço, do lado esquerdo. Um dreno enorme, da grossura de uma mangueira de jardim, sai da minha barriga e mergulha para debaixo da cama, sabe-se lá para onde… Descubro que por baixo da manta de frio, estou completamente nu. Nem minha dignidade deixaram. Estou a mercê dos plantonistas que conversam muito entre si, e riem e brincam. Lembro que fiz uma malcriação a uma jovem enfermeira que sentada perto de minha cama,  olhando fixo para mim, ria e ria, certamente de alguma piada que um dos colegas contaram. Encarei-a e falando com esforço, a garganta arranhada pelos tubos, perguntei
com a melhor cara de zangado que consegui fazer:
“Você tá rindo do quê?”  Desconcertada, ela saiu de onde estava e foi para outra sala. Tive cãibra forte na perna da poliomielite e envolveram-na toda com algodão e a situação melhorou. Eu dava cochilos mas não dormia como desejava. Na cama ao lado da minha, uma garotinha de 14 anos chorava alto e pedia: “Tia, me dá água”. As vezes uma enfermeira vinha e molhava os lábios dela com gelo. Em frente à minha cama, um homem qua havia sido operado na véspera, insistia em sair dali, ameaçando arrancar os tubos todos e levantar-se. Disseram-lhe que já haviam chamado o seu médico, o único que podia autorizar sua saída da UTI. Foi se irritando e passou a descompor o corpo médico, levando séria reprimenda. Devem ter-lhe dado um “sossega leão”, pelo tubo de soro, pois pegou num sono profundo e a paz voltou a reinar. Apenas à noite, ( agente só sabia que era noite ou dia, através de um enorme relógio na parede em frente), a paz foi de novo quebrada. Uma senhora teve uma parada cardíaca e a equipe médica cercou sua cama com biombos e passaram a aplicar-lhe choques elétricos. O monitor volta a funcionar, para logo depois parar novamente. Novos choques, novas batidas. Esse ritual repetiu-se mais de dez vezes durante a noite e no final, de tão cansados, os médicos nem pensaram mais em nos proteger colocando biombos para que não víssemos o espetáculo. Essa senhora veio a falecer na noite seguinte, sem maiores estardalhaços. Acostumados a ver sempre uma aglomeração de batas brancas junto à sua cama, vimos, de repente saírem todos e ficar apenas uma enfermeira preparando o corpo, tirando-lhes os tubos e monitores e cobrindo o seu rosto. Um enorme silêncio invadiu a sala e tenho certeza de que, como eu, os outros ocupantes daquela UTI cardiológica, também rezavam por sua alma.
 
Paulo Bezerra – ( 09/12/2009).


PRÓTESE – (Parte II)

10 janeiro 2009

A medida que conduzem minha maca pelos corredores do Real Hospital Português, vou examinando as diversas nuances de cor do fôrro do teto. Nenhuma emoção, nenhum mêdo e nem ao menos curiosidade.  Em compensação, nenhum sono. A mente alerta e pronta para qualquer situação que se apresente. Na entrada do Bloco Cirúrgico, congestionamento de macas. Um dos maqueiros me anuncia, dizendo: “ este aqui é o paciente do Dr. Mauro Arruda”. Fiz uma graça, dizendo: “Vê lá, cuidado para não me trocarem e cortarem o que não é para cortar…” Todos riram.  A mesa de cirurgia era como uma cruz de ferro. Nela me colocaram, completamente sem roupa e o frio do ar condicionado me fez tiritar. Braços abertos e atados na mesa, apareceu uma enfermeira gordinha e simpática, com uma seringa na mão. Alisou minha careca e disse com voz meiga: “ A única coisa que você vai sentir, será uma picada de injeção.
Ao passar o algodão sobre a veia, reclamou da quantidade de povidine que estava no meu corpo, a ponto de manchar o algodão de amarelo. Mas um dos médicos mascarados à minha frente, respondeu a ela que era assim mesmo. Quanto mais melhor. Foi a agulha da injeção entrar na veia para um sono gostoso me tomar, mas quando começava a soneca um médico me balançou, dizendo: “Paulo, Paulo, acorda,
A cirurgía foi um sucesso. Nem acreditei no que ouvia. Tentei agradecer mas ele disse:
“Fique quieto. A gente não vai entender o que  quer dizer porque você está entubado.
Estamos na UTI e se você continuar bem assim, logo, logo, a gente retira a entubação. Eu estava entre dormindo e acordado e ouvia o som do ar passando pelos tubos. Depois de um tempo que não sei quanto, vieram retirar os tubos e disseram: “Vê se você consegue respirar sem eles”. Lembro que pensei: “ E se eu não puder?”
 
Paulo Bezerra ( 09/12/09)


PRÓTESE – (Parte I)

8 janeiro 2009

Finalmente chega o dia 27.03.1990, que me parecia inatingível. Foram dois anos de lutas e expectativas. Exames e consultas médicas, radiografias, ultrassonografias, cateterismos e ecocardiogramas de perder as contas. Durante esse tempo, quantas vezes pedi a Deus para abreviar meus passos e fazer com que eu estivesse logo deitado em uma cama e os outros cuidando de mim. Já não agüentava mais ter de correr atrás, tomar decisões, ouvir opiniões e fazer meu trabalho que era puxadíssimo e de grande responsabilidade e tensão nervosa. Mas finalmente aqui estou eu. Passei a noite em claro, tomando vários banhos com “Povidin”, um antibactericida à base de iodo e às três da madrugada chega um enfermeiro para me depilar todo. Quando finalmente fica claro, começam a chegar os parentes e amigos. Alguém propõe rezarmos um Pai Nosso, todos de mãos dadas. Uma enfermeira entra e me aplica uma injeção no músculo. Quase no mesmo instante  dá uma sensação tão boa, que fiquei achando lindo aquela corda de carangueijos de mãos dadas e rezando. Formavam uma onda, que subia e descia. Se morresse naquele instante, garanto que ia direto para o céu. Será essa a sensação que sentem os drogados ?
 
Paulo Bezerra – (08/01/2009)


DOM HÉLDER CÂMARA ( De carta enviada ao Jornal do Commercio)

31 dezembro 2008

Sempre admirei o trabalho social de  Hélder Câmara, desde quando o Dom  dirigia o “Banco da Providência” no extinto Estado da Guanabara. Quando chegou à nossa cidade, no ”olho do furacão” do regime militar , saudei-o através de carta em jornal, dando-lhe as boas vindas.  Escrevi também sobre o Padre Hélder, como gostava de ser chamado, na “Folha Forte”, na Seção religiosa do “Jornal do Commercio” e também no meu livro “Quando leres esta carta”. E finalmente, tenho seu livro “Mil razões para viver”, sempre a minha cabeceira. Por todos esses motivos, sinto-me chocado com reportagem que li hoje no “JC” a respeito de caminhada que será feita pelo grupo “Mulheres contra o desemprego” em homenagem ao Dom, tendo à frente  um Boneco Gigante,  com as características físicas do religioso, confeccionado pelo bonequeiro-carnavalesco, Silvio Botelho. Cúmulo do mau gosto e da falta de respeito. Fica a parecer um cordão carnavalesco. Dom Hélder era muito tolerante e compreensivo, mas duvido que aceitasse esse carnaval. Não é atoa que os nossos irmãos evangelicos nos chamam de “adoradores de ídolos”.
 
Paulo Fernando de Moura Bezerra  Cavalcanti
                     assinante


SARAMAGO O ATEU

29 dezembro 2008

Acho muita graça quando leio declaração do escritor português José Saramago dizendo-se ateu. Em primeiro lugar o ateu é apenas alguém que procura desesperadamente quem o negue, a fim de encontrar o que  procura: Deus. Depois, quem é inteligente não pode acreditar nessas baboseiras de geração expontânea, Big Bang, sopa de bactérias e outras sandices. E Saramago é inteligente. Muito inteligente. Tão inteligente que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Não pode dizer-se ateu quem escreveu um livro como “O Evangelho segundo Jesus Cristo”. Nele,  Saramago descreve um Jesus tão Divino, quanto humano, pois estava revestido da carne.

Os conflitos de quem nasce já com uma missão e tem de cumpri-la, mesmo carregando sua humanidade carnal que tem medo, que sofre fome, sede e frio, ele os descreve com maestria. Já os conflitos psicológicos do carpinteiro José e a sua crucificação que ele mesmo procurou têm uma carga emocional enorme. O Jesus descrito por ele tem todas as fraquesas humanas, menos o pecado. Quem tem a sensibilidade de escrever uma obra dessas, nunca poderá dizer-se ateu. Nenhum dos seus livros, chega a altura do “Evangelho…”, mas

“Ensaio sobre a cegueira” consegue chegar bem perto.

 

             Paulo Bezerra – (26/12/2008)


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