- Elviraaaaaaaa
- Que foi patroa?
- Onde você estava, mulher ?
- Na escada “queimando um boró”
- E eu já não lhe disse para não fumar nas áreas
comuns do edifício, pois a síndica proibiu?
- E eu vou fumar aonde, patroa ?
- No seu sanitário, oras..e depois use bom ar
- Ah, a senhora quer que eu morra sufocada…
- Não, Elvira, eu só não quero que você nos mate a
todos com o seu veneno.
- E “baseado”, patroa, eu posso fumar na escada ?
- Você está louca ? Quer ir presa ?
- Presa porquê ? O Carlinhos seu filho está cansado
de “dar um tapa no baseado” ali na escada.
- Meu filho fuma maconha ?
- Ora se…tem dia que ele fica espumando feito
cachorro doido… ele e a namorada.
- A Aninha também ? Meu Deus, valei-me…
- Eu acho melhor a senhora não meter Deus nisso
- Você é uma mentirosa. Saiba que está demitida.
- Ta bem, vou vazar…e o meu dinheiro ?
- Você está demitida por justa causa. Não tem direito
a nada…sua caluniadora.
- Ah isso é que não…pois saiba que vou cobrar do
Seu Hamilton, aquele seu primo que vem sempre
aqui quando seu marido não está em casa…
- Como você é afoita…mas você nem sabe o
endereço dele…
- Sei, sim senhora, ele me deu um cartão de visita e
disse que qualquer coisa eu procurasse ele.
- Quando foi isso ?
- No dia que eu lavei e enxuguei no ferro uma cueca
suja dele…
- Eu estava brincando com você, Elvira…você não
Sabe que nos duas somos amigas ?
- Somos ?
- Claro Elvira. Você é meus pés e minhas mãos e já
é uma pessoa da família.
- E o cigarro ?
- Pode fumar na escada. A síndica que se dane.
Aquela vaca devia fiscalizar era a filha dela que
vive pelas escadas agarrada com o namorado…
- Que pena que meu cigarro acabou…
- Está sem cigarro ? Coitada. Tome aqui dinheiro, vá
comprar seu cigarrinho…eu já fumei e sei o que é
ficar sem cigarro. Quando acabar, pode me pedir.
- Sim Senhora….
O CIGARRO DE ELVIRA
7 maio 2009A D E L Á R I O
1 maio 2009Adelário era invocado com o próprio nome. Também, com um nome desses, quem não é ? O pior é que a mãe se chamava adelaide, talvez vindo daí, tão extravagante graça para um homem. É claro que toda a “canáia” só o chamava de “Adelaide”, mexendo de uma só vez com mãe e filho. Ele jogava o fino da bola, mas sempre se escondia para não participar de nossas peladas, só para não ouvir, “vai Adelaide”, chuta, Adelaide, gooool de Adelaide”… o pobre ficava P. da vida e não conseguia acostumar-se com aquela situação. Talvez por isso fosse tão determinado a fazer tudo bem feito, quer jogando futebol, quer entregando cartas no seu oficio de carteiro, quer bebendo, quando saía com nossa turma para raparigar, como chamávamos a nobre arte da boemía. Certa ocasião Adelário passou da conta. Foi num sábado de carnaval, na calçada famosa do Bar Savoy. O mela-Mela corria solto e quando não melávamos de baton as meninas que passavam, dávamos banho uns nos outros com cerveja, Ovos de galinha também eram uma boa munição naquela guerra. Lembro que tirei o chapéu de Adelário que acabara de chegar à mesa, coloquei um ovo dentro e recoloquei-o na cabeça da vítima, dando imediatamente uma pancada na parte de cima do chapéu. Gema e clara escorreram-lhe pelo rosto, melando sua roupa limpa, limpa. Ele assustou-se mas não reclamou. Entrou no bar, lavou-se, e à camisa, mas não voltou logo . O próprio Savoy vendia disfarçadamente os ovos-munição aos seus fregueses. Percebi que antes de voltar à mesa, o guerreiro agredido dirigira-se até a área onde os ovos eram vendidos. Ao voltar , era visível o volume que quatro ovos, dois em cada bolso da calça faziam. Ele esperava a melhor hora para me atingir. Levantei-me disfarçadamente e sem que percebesse minha intensão, bati forte com as palmas das duas mãos nos bolsos dele. A melequeira desceu-lhe pelas pernas das calças. Perdeu a cabeça. Pegou os copos de cerveja da mesa e passou a jogar o liquido em cima de mim. Só que todos estávamos já encharcados do precioso liquido e pouco se nos dava mais um banho. Foi aí que passou pela calçada, bem junto de nossa mesa, uma patrulha de policiamento a pé, composta por uns seis soldados. Sem percebe-la, sedento por vingança, Adelário joga mais um copo de cerveja na minha direção. Abaixei-me instintivamente e o liquido atingiu em cheio, o peito do comandante da patrulha. Antes que alguém pudesse falar eita, nossa mesa estava cercada e todos nós com voz de prisão gritada aos nossos ouvidos. Formou-se o buruçu, pedimos muitas desculpas às autoridades, o garçon “Bigode de Sopa” interferiu em nosso favor, que éramos todos universitários responsáveis, pessoas de bem, os donos do Savoy vieram em socorro dos seus clientes, até que o comandante acalmou vendo que sua farda já estava quase enxuta. Foi aí, que Adelário, aquele infeliz, que passara todo o tempo da pendenga bebendo sem parar, entrou na discussão aos gritos: “ Frescura desses soldados, porra. Molhou um pouquinho de nada…vê eu como to aqui todo melado e num to com frescura…” Pronto. Acabou a discussão no ato. Fomos presos nos todos, mais o garçon “Bigode de sopa”, mais um dos sócios do Bar Savoy e mais dois turistas argentinos que ocupavam uma mesa ao lado da nossa e inventaram de dar palpite na sua língua de gringo.
MAURICIO E NECO
26 abril 2009Mauricio tinha tudo na vida para ser feliz. Nascido em berço de ouro, família organizada e estável financeiramente, alto, 1,85 metros, olhos claros, boa pinta, físico de remador, pois praticava remo regularmente, bom emprego em órgão publico, após ter sido co-piloto em empresa aérea de grande porte e ainda uma noiva que o amava muito. Só que não conseguia ser feliz. Uma constante insegurança terminava por afasta-lo das amizades que fazia. Certa vez, em uma festa, no órgão em que trabalhava, um colega conta-lhe uma história e no calor da narrativa põe o dedo em riste perto do seu rosto. Imediatamente Mauricio pega-lhe o dedo e diz-lhe que não faça aquilo porque alguém que estivesse observando-os, poderia supor que estivesse levando um espôrro. Realmente alguma coisa dentro do seu cérebro não funcionava bem. Certo dia, dançando com a noiva em uma festa na qual bebera muito além da conta, cismou que outro casal batera neles de propósito. Era um sexagenário que, muito míope, tentava dançar com a esposa.” No próximo encontrão vou bater nesse velho”, ameaçou ele. Se bem disse, melhor fez. Ficou de propósito na frente do casal e quando houve o choque, bateu no velho, na esposa e ainda empurrou a própria noiva que tentou impedi-lo. Formado o tumulto a polícia foi chamada. Só que para Maurício, policia era cachorro. E fez questão de repetir isso na frente dos policiais. Levou de um dos guardas, dois tapas na cara e de tão bêbado, nem pode reagir. Foi algemado e preso. Sua família, influente, libertou-o ainda sob o efeito do álcool. Dia seguinte, acordou sentindo-se ótimo, sem lembrar de nada do que ocorrera. Os amigos encarregaram-se de contar já que nenhum familiar o fizera. Não acreditou no que ouviu. “Eu apanhei na cara ? De quem ? De Neco, denunciaram. Foi em casa, apanhou o revolver e passou a procurar o policial, que morava no mesmo bairro. Quando já voltava para casa, um amigo, – ou sería inimigo? – avisou-o de que o Neco, de folga, jogava bilhar no bar da praça. Manobrou o Jeep que dirigia e estacionou à porta do bar. Entrou, abriu a camisa para mostrar que estava armado, encostou-se no balcão e pediu ao atendente: “Me dá uma coca-cola pois estou com vontade de vomitar. É que tem um canalha aqui dentro…” Nessa altura, Neco solta o taco de bilhar, firma os pés no chão e põe a mão na arma. No que fez isso, Maurício despediu-lhe um tiro que varou seu coração. O guarda caiu lentamente, apoiando-se no bilhar, mortalmente ferido. Mas antes de cair, ainda conseguiu desferir três tiros que atingiram Mauricio, sem perder um. Neco morreu ali mesmo. Mauricio ainda conseguiu chegar até o Jeep e ligar o motor, depois desmaiou. Morreu de madrugada no hospital, após ser operado. Cada dia que passa, me convenço mais de que livre arbítrio é balela. Que culpa teve o causador da tragédia de nascer com uma disfunção mental ?
BIBIU E BARONESA
21 abril 2009Bibiu era o apelido futebolístico de Firmino da Rocha Carvalho, meu sogro, que defendeu as cores do seu querido Santa Cruz Futebol Clube, da década de 20 até a de 30. Contava que nunca recebeu nenhum centavo para jogar. Muito pelo contrário, pagava a mensalidade de sócio e ainda tinha que comprar o material esportivo que usava nos jogos. Era a época do amadorismo puro em que o termo “suar a camisa por amor” era muito bem empregado e verdadeiro. Sua posição era ponta direita que no futebol moderno é chamada de ala, com a obrigação de atacar e defender, diferentemente do ponta daquele tempo que só fazia atacar. Tinha que ser muito veloz e driblador para chegar até a linha de fundo e cruzar a bola para os outros atacantes. Mestre Bibiu era exímio ponta direita, posição que tornou Garrincha inesquecível para o mundo. Os jogadores de defesa dos times congêres, detestavam jogar contra Bibiu pela humilhação que sofriam com seus dribles desconcertantes. O pior é que não conseguiam pará-lo nem a pontapé. Parece que o atleta tinha canelas de aço e asas nos pés. Livrava-se facilmente das agressões e partia em direção ao gol, onde as vezes entrava com bola e tudo. Tinha um zagueirão no Sport Recife que já havia criado um complexo com Bibiu, por não conseguir marca-lo. Era o Freire, pai do Deputado Federal Roberto Freire, que jogava com o apelido de Baronesa. Quando os dois se encontravam dentro de campo, saiam faíscas. Certa tarde de domingo, durante um clássico Santa Cruz X Sport, a disputa chegou ao auge. A imprensa especulou durante toda a semana, quem sairia vencedor de mais esse duelo entre os dois. Baronesa jurou o adversário dizendo que se não o parasse na bola, o pararia na porrada. Entrevistado, Bibiu falou que do lado de cá também tinha homem. Se fosse para jogar na porrada, que fosse feita a vontade do seu marcador, ele estaria pronto para responder à altura. Começa o jogo e Bibiu dá logo dois dribles desconcertantes no Baronesa, que se esparrama com a bunda no chão. A torcida tricolor vibra. Logo em seguida, cego pela humilhação que estava sofrendo, o zagueiro tenta visivelmente atingir o adversário com os dois pés, mas Bibiu, ágil, pula mais alto e no ar ainda dá um pequeno coice na perna do agressor, para gáudio de sua torcida. Prevendo complicações futuras, o juiz expulsa os dois, num ato de exacerbada prepotência. Se alguém merecia ser expulso, sería Baronesa, que agredira o veloz ponta tricolor. Bibiu sai de campo aplaudidíssimo pela sua torcida e de cabeça erguida.
Já Baronesa, tira do bolso do calção um currimboque de rapé, toma uma pitada em cada narina e grita para o adversário: “ Na próxima vou lhe pegar, seu
atrevido”… e sai em desabalada carreira para a vestiária, sob as vaias das duas torcidas. Pegou nada. Nem houve próxima vez. De tão chateado pela humilhação, deixou de jogar futebol. Tempos depois trabalhei com o Velho Freire na Fosforita Olinda e ele narrou sua versão deste causo, idêntica a que Firmino me havia contado. Terminaram bons amigos por fim e riam muito de suas aventuras no futebol.
MONTANHA ( Conclusão )
5 abril 2009Depois de balançar a mão no ar várias vezes para espantar a dôr, o preso pegou a palmatória e bateu pra valer nos outros três, que urravam e choravam de dor, olhando suas mãos sangrarem. Não satisfeito, Montanha falou: “Agora, vamos inverter a parada, cada um dos três, dá um bolo na bicha espancadora. A seção de tortura só acabou quando o delegado telefonou de casa, avisando que já estava vindo. Só aí Montanha percebeu que tinha feito uma besteira. Se o delegado soubesse do ocorrido, ele estaria em maus lençóis, até porque existiam antecedentes. Mas logo achou a solução. Mandou buscar água e estopas e derramou baldes e mais baldes no chão da delegacia. Mandou então que os quatro rapazes enxugassem o chão, espremendo as estopas dentro dos baldes. A água fria, melhorou um pouco o ardor que sentiam nas mãos. Quando estava tudo enxuto, o torturador derramou novamente os baldes no chão e tudo recomeçou. Com o exercício de espremer as estopas, as mãos das vítimas foram desinchando e ficando finas outra vez. Quando o delegado chegou e viu a faxina, perguntou o que estava havendo. O cínico do Montanha disse então que as quatro “ donzelinhas” estavam aprontando no carnaval do centro da cidade, foram presas e fizeram um acordo com ele. Lavariam a delegacia que estava imunda e depois iriam embora sem serem autuadas. O delegado riu e concordou com a medida tomada pelo auxiliar. Os quatro foram soltos e saíram dali cabisbaixos e sentindo-se altamente violentados. Três deles desapareceram na noite de carnaval, mas um, o mais franzino de todos, o que bateu e apanhou de todos, ficou nas imediações da delegacia. Entrou em um bar e comprou um estojo de barbear descartável. Abriu com os dentes o envoltório de plástico, tirou as duas lâminas e guardou-as cuidadosamente no bolso da camisa. Lá para as tantas Montanha saiu e dirigiu-se para o seu carro.
Entrou, bateu a porta e desceu o vidro. Nessa hora sentiu uma mão em volta da sua cabeça e uma lâmina no seu pescoço. As últimas palavras que ouviu antes de morrer, foram: “Más notícias…não suporto machão que espanca mulher…resumo da ópera, você ta ferrado, seu merda…” Depois disso só sentiu a lâmina dilacerando sua garganta, o sangue brotando e a dificuldade para respirar. Mais nada…
Paulo Bezerra – ( 04/04/2009 ) – Recife.
MONTANHA
4 abril 2009Nunca um apelido foi tão bem colocado. Tinha 126 kgs. bem socados dentro de 1.70 m. de altura e nem uma grama de gordura. Só músculos e ruimdade. Estudante de direito, especializou-se em Direito Penal e suas companhias eram a fina flor da marginalidade, todos seus clientes, (todos inocentes), era o que costumava dizer. Além do Bacharelado, estudava artes marciais e todo santo dia treinava em academia. Ainda estudante, conseguiu um cargo de escrivão de policia e não raro entrava na cela de algum marginal, completamente desarmado e mandava que o bandido o atacasse, só para treinar seus golpes. Assustado, o marginal não ousava ataca-lo para valer e terminava por apanhar uma bela sova. Certo domingo de carnaval estava de plantão na Delegacia de policia, respondendo pelo expediente, pois o delegado fora descansar um pouco em sua casa após o almoço. Chega um carro patrulha e despeja um bloco de quatro rapazes alegres, cada qual mais afetado que o outro. Estavam bêbados e se esgalfiando no centro da cidade, disseram os patrulheiros. Montanha mandou um guarda abrir uma cela, porém antes resolveu dar vasão ao seu sadismo e castigar as “bichinhas”, que encolhidas junto à parede, choravam baixinho. Fechou ainda mais a cara e mandou que os quatro se aproximassem do seu bureau.
Seu dircurso foi um verdadeiro libelo: “ Digo logo a vocês que não suporto viado. O resumo da ópera é que vocês quatro estão ferrados. Se continuarem com chororó vão pro pau, portanto tratem de engolir esse choro”. Ouviram-se quatro delicados soluços e deixaram de chorar. Só que os olhos dos quatro ferrados, não paravam de derramar lágrimas. Um observador atento, veria o brilho de sádica satisfação nos olhos do montanha. A autoridade abriu uma gaveta e tirou uma palmatória de peroba, colocando-a em cima do bureau. Escolheu o mais franzino dos quatro e ordenou: “Marginal, pegue essa palmatória e dê um bolo na mão de cada um dos outros três”. “ Eu, doutor? “ Quem mais, idiota, você é surdo?” O pobre pegou o instrumento de tortura desajeitadamente, quase não podendo com o peso. Aplicou um golpe na mão de cada colega, com muita pena e delicadeza. Nem chegou a doer de tão devagar. Era isso que o algoz estava esperando. Tomou a palmatória da mão do pobre e mandou-o abrir bem a mão: “Vou lhe ensinar como se dá um bolo, sua menininha” e tascou uma pancada tão forte, que o sangue apareceu debaixo da pele, em forma de calo. O grito nervoso foi sufocado com a mão livre, e o torturado não chorou.
(Continua)
ARAPIRACA E O 31 DE MARÇO (Conclusão)
2 abril 2009A notícia falsa de que Pernambuco estava debaixo de bala, deixou-me bastante preocupado. Se fosse hoje, um simples celular teria me tranqüilizado pois falaria com os meus familiares e esclarecia tudo, mas em 1964 essa maravilha ainda não existia e o serviço telefônico era bastante precário. Fechei minha conta na “Pensão Meridional”, peguei minha mala e corri para a empresa de ônibus. A moça foi categórica: “Aqui, motorista nenhum apareceu hoje, mas se aparecer algum, tem ônibus sim para Maceió.” Comprei minha passagem, sentei na minha mala e esperei. As 12:30 hs., apareceu um motorista e entrei no ônibus junto com outras pessoas que também aguardavam. Aqui e ali, o veículo era parado por uma patrulha do exército, que revistava todos os passageiros e depois mandava o motorista seguir. Foi tudo calmo até chegarmos a uma cidade chamada “Maribondos”. Ali, subiu um sujeito mal encarado, barba por fazer e com uma capa de chuva por cima da roupa, embora o sol e o calor estivessem de rachar. Chapéu de massa caído sobre os olhos, só faltava mesmo ter uma placa dizendo: SUSPEITO. E não é que o famigerado sentou ao meu lado… Com o balanço da estrada esburacada, dava pra sentir o enorme revolver que o infeliz trazia na cintura. E eu apelando para nenhuma patrulha mais nos parar. Não deu outra.
Quando o sujeito viu a patrulha, tirou rapidamente o revolver dos quartos e o colocou debaixo da cadeira, muito mais da a minha do que da dele. Fomos revistados e o soldado ficou com um pé bem junto da arma mas graças a Deus não a viu. Tenho certeza de que se a visse, o sujeito diria que a arma era minha e eu diria que era dele, e desceríamos os dois, sabe-se lá para onde. Chegamos a Maceió faltando dez minutos para as seis, horário do último ônibus para o Recife. Nem deu tempo de comprar a passagem, joguei a mala dentro do ônibos e paguei ao próprio cobrador. Na cidade de Palmares, divisa com Pernambuco, outra patrulha disse ao motorista que nada mais passaria aquela noite para a cidade do Recife. Terminou o líder da patrulha cedendo ao argumento do motorista de que os passageiros estavam cansados…cansados…cansado estava eu que há dias só fazia viajar. Chegamos à Rodoviária do Recife Meia noite e meia, Não tinha táxi algum. Fui a pé até minha casa no bairro da Boa Vista, cerca de cinco quilômetros dali. Jurei, que nunca mais na minha vida, pisaria na cidade de Arapiraca, embora ela não tivesse culpa de nada. E pelo andar da carruagem, vou cumprir minha promessa.
Paulo Bezerra – ( 01/04/2009) – Recife.
ARAPIRACA E O 31 DE MARÇO – (Parte III)
1 abril 2009Passamos todo o dia seguinte atrás do tal senhor que tinha sacos de aniagem. Em todos os lugares que passávamos ele “tinha acabado de sair dali”, até que às quatro da tarde alguém informou seguramente que ele teria ido para Arapiraca. Restava-nos fechar a conta no Hotel, entrarmos no fusquinha e começarmos tudo de novo, mais uma vez, de noite.
Agora mais prevenido, jantei antes da nova viagem e comprei água mineral que naquele tempo só era vendida em garrafas de vidro, para enfrentar nova travessia. Chegamos de madrugada e pela primeira vez, dormi no colchão de palha da “Pensão Meridional”. Amanhã procuraria o tal magnata que possuía, segundo as informações, um píer no porto de Maceió e toda aniagem do mundo. Acordei bem cedo e já no café da manhã, fui procurado por um engraxate que prometeu me dizer onde estava “ seu fulano”, se eu engraxasse os sapatos com ele enquanto tomava café. E quem lhe disse que eu quero falar com ele. Perguntei. Todo mundo aqui na cidade já sabe, seu moço. Rendi-me à situação surreal que enfrentava. Todos sabiam que eu procurava “seu fulano”, claro que o próprio já sabia há muito que eu o procurava e no entanto eu não o encontrava. “Ele está lá no banco da praça lendo jornal.”, disse-me o sabido comerciante mirim. Saí sem terminar o café e com um pé de sapato engraxado e o outro não. Realmente, em um banco da praça estava um grupo de senhores silenciosos, em volta a um enorme rádio de pilha. Perguntei, pedindo desculpas por interroper, quem era seu fulano. “Sou eu”, respondeu o de cara mais preocupada. Identifiquei-me, disse o assunto e no final fiz um apelo dramático: “ Por favor seu fulano, resolva meu problema “. De imediato ele fez um arzinho de mofa e respondeu: “ Meu jovem, você não tem mais problema, Fosforita não tem mais problema, eu não tenho mais problema e ninguém tem mais nada. O Brasil está em revolução, em Pernambuco Miguel Arraes está resistindo e a bala está “comendo no Centro”. Fiquei estático. A notícia foi altamente impactante. Era o dia 1 de abril de 1964, o mundo estava pegando fogo e eu não sabia de nada.
ARAPIRACA E O 31 DE MARÇO
31 março 2009( Parte II)
Quando cheguei à “Pensão Meridional” pensando em tomar um banho, beber muita água para aplacar a secura da garganta e descansar o esqueleto, estava a me esperar o Rocha, nosso representante local. Explicou-me que o embarque estava comprometido, por falta de sacos de aniagem para enfardamento das folhas de fumo. Mas…existia um alto comerciante local, que tinha um estoque enorme de aniagem e certamente cederia à Fosforita, por um preço camarada. Vamos a ele então, eu disse. Vamos, respondeu Rocha. Só que ele está agora em Maceió
soube agorinha mesmo. Ô tristeza, justo de onde eu acabara de chegar… Deixei a bagagem no quarto da pensão e embarquei no Fusca do Rocha, para fazer de volta a viagem que acabara de fazer. Antes bebi dois copos d”água. Pretendia beber um litro, mas pense numa água salobra, a de Arapiraca nos idos de 1964. O velho fusca rabeava nas estradas de barro entre Arapiraca e a capital Maceió. Os caminhões pesados deixam duas trilhas feitas pelos pneus, o que torna alta, a terra do meio, que fica entre as duas trilhas. Foi não foi o velho Fusquinha que tem o assoalho bastante baixo, raspava na areia até parar. O jeito era dar marcha ré, fechar os vidros, e, marcando carreira feito boi brabo, “mergulhar” literalmente naqueles canteiros suspensos. A areia cobria o parabrisa e a direção era feita em vôo cego.
O rádio do Fusca só falava na situação política do Brasil. Acontece que nós só podíamos nos preocupar em chegarmos vivos à Maceió, e nem notamos o tom de urgência nos depoimentos dados às estações de rádio. Chegamos à Maceió alta madrugada. Só restava irmos dormir e o fizemos no Hotel Califórnia, no centro da cidade, com banho quente e um abençoado ventilador rotativo. Estávamos já no dia 30 de março de 1964, véspera portanto da Revolução Militar. Só que ninguém sabia disso e nossa preocupação era apenas sacos de aniagem
Paulo Bezerra ( 30/03/2006 – Recife)
ARAPIRACA E O 31 DE MARÇO
28 março 2009Corria o ano da Graça de 1964 e a Fosforita Olinda S/A havia vendido toneladas do seu produto aos plantadores de fumo da cidade alagoana de Arapiraca. A safra foi espetacular, no entanto, faltava mercado. Os produtores propuseram pagar suas dívidas com fumo e , para não perder tudo, a industria pernambucana aceitou. Alugou armazéns da SANBRA- Sociedade algodoeira do Nordeste Brasileiro S/A, existentes naquela cidade e estocou o produto.
Comercializou-o depois com uma firma baiana, mesmo com prejuízo, e me mandou para Arapiraca assistir ao carregamento e pesagem de cada caminhão, emitir uma Nota Fiscal e receber o pagamento em dinheiro vivo. Pense numa bronca. Mas, no auge dos meus vinte anos e entusiasmadíssimo com o meu progresso na empresa, topei a parada. Além do mais andaria de avião pela primeira vez e teria na missão, status de diretor da empresa. Santa ignorância. Só na cabeça de alguém muito imaturo, diretor emite nota fiscal. No dia 29/03/64, pela manhã bem cedo, embarquei no Aeroporto dos Guararapes em um DC-6B da VASP rumo ao aeroporto de Maceió. Metade do vôo o potente quadrimotor passou subindo e a outra metade descendo. É que, via aérea, Maceió é tão perto do Recife, que quando eu estava “pegando o jeito”, a viagem terminou. De repente vi umas folhas de coqueiro passarem pela janela, assustei-me, mas é que já estávamos no aeroporto. Levei mais tempo despachando e apanhando minha mala nos dois aeroportos, do que estive no ar. Tempo mesmo levei entre o Aeroporto Zumbi dos Palmares, até o centro da cidade de Maceió, onde me meti em um ônibus velho e fumacento, rumo à cidade de Arapiraca, onde só cheguei à tardinha, morto de fome, sede e cansaço. Finalmente iria descansar. Descansei nada.
(CONTINUA)
Escrito por Paulo Bezerra