OS VENTOS DE AGOSTO

1 setembro 2010

     

Os ventos de agosto são benfazejos.

Eles afastam as nuvens negras

Túmidas de tempestades

Que sobraram do inverno  passado.

Os ventos de agosto são produtivos

Pois agitam as copas das mangueiras

Cheias de flores amarelas

Que ao balanço do seu sopro

Se transformarão em saborosos frutos….

Os ventos de agosto são alegres

Porque prenunciam o novo verão

Estação do sol que inexoravelmente

Sucederá à primavera…

Os ventos de agosto são confiáveis

Pois levam consigo a umidade

Que flagelou nossos ossos,

E cada lufada  arranca um naco,

Da tristeza que ficou em nós

Durante a estação das chuvas.

Por isso amo.

Os ventos de agosto

Esse mês oito,

De transição e prova

De que o relógio de Deus

Sempre cuidará de nós.

                                (Afogados, agosto de 2010)


COLABORAÇÃO DE BEL MELANI

6 abril 2010

“Porque já não temos mais idade para,
dramaticamente, usarmos palavras
grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”.
Ninguém sabe como, mas aos poucos
fomos aprendendo sobre a continuidade
da vida, das pessoas e das coisas. Já não
tentamos o suicídio nem cometemos
gestos tresloucados. Alguns, sim – nós, não.
Contidamente continuamos. E substituímos
expressões fatais como “não resistirei” por
outras mais mansas, como “sei que vai passar”.
Esse é o nosso jeito de continuar, o mais
eficiente e também o mais cômodo, porque
não implica em decisões, apenas em paciência.”
*
(Caio Fernando Abreu)


Cáh Morandi

19 fevereiro 2010

De tudo durante a vida
Sempre valerá a pena
Todo perder, todo ganhar
Todo partir, todo ficar
Todo encontro, todo desencontro
Todo choro, todo riso
a vida é mesmo isso
Mesmo que a gente não veja
há tempos de cegueira passageira
Em que os olhos serão esquecidos
mas por todo sonho que será sonhado
Valerá à pena ter adormecido”
(Cáh Morandi)


Retrato

16 fevereiro 2010

Eu não tinha êste rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem êstes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem fôrça,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha êste coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espêlho ficou perdida
a minha face?

CECÍLIA MEIRELES


Borboletas…

18 dezembro 2009

(Mário Quintana)

“Aprenda a gostar de você,
a cuidar de você e, principalmente,
a gostar de quem também gosta de você.

A idade vai chegando e,
com o passar do tempo,
nossas prioridades na vida
vão mudando…

Mas uma coisa parece
estar sempre presente:
A busca pela felicidade
com o amor da sua vida…

Com o tempo, você vai percebendo que
para ser feliz com uma outra pessoa,
você precisa, em primeiro lugar,
não precisar dela.

Percebe também que
aquela pessoa de quem você gosta
(ou acha que gosta), e que
não quer nada com você,
definitivamente não é
a mulher (o homem) da sua vida.

Você aprende a gostar de você,
a cuidar de você e, principalmente,
a gostar de quem também gosta de você.

O segredo é não correr
atrás das borboletas e sim
cuidar do jardim para que
elas venham até você.

No final das contas,
você vai achar não quem você
estava procurando,
mas quem estava
Procurando por você!!!!”


Miastenia por quem a tem – DIÁRIO DE BORDO

15 junho 2009

PARA REFLEXÃO

13 junho 2009

 (Recebi este texto do meu primo Roberto Sérgio Cortez.
Como gostei demais, transcrevi para vocês).
 
Aí  um  dia você toma um avião para Paris, a lazer ou a trabalho, em um vôo da  Air  France,  em  que a comida e a bebida têm a obrigação de oferecer a melhor  experiência gastronômica de bordo do mundo, e o avião mergulha para
a  morte  no meio do Oceano Atlântico. Sem que você perceba, ou possa fazer qualquer  coisa a respeito, sua vida acabou. Numa bola de fogo ou nos 4 000 metros  de  água  congelante  abaixo  de você naquele mar sem fim. Você que
tinha  acabado  de  conseguir  dormir na poltrona ou de colocar os fones de ouvido  para assistir ao primeiro filme da noite ou de saborear uma segunda taça  de  vinho tinto com o cobertorzinho do avião sobre os joelhos. Talvez
você  tenha  tido  tempo de ter a consciência do fim, de que tudo terminava ali. Talvez você nem tenha tido a chance de se dar conta disso. Fim.

Tudo  que ia pela sua cabeça desaparece do mundo sem deixar vestígios. Como se jamais tivesse existido. Seus planos de trocar de emprego ou de expandir os  negócios.  Seu  amor imenso pelos filhos e sua tremenda incapacidade de
expressar  esse  amor.  Seu medo da velhice, suas preocupações em relação à aposentadoria.  Sua  insegurança em relação ao seu real talento, às chances de  sobrevivência  de  suas  competências nesse mundo que troca de regras a
cada seis meses. Seu receio de que sua mulher, de cuja afeição você depende mais  do  que  imagina,  um  dia lhe deixe. Ou pior: que permaneça com você infeliz,  tendo  deixado  de  amá-lo.  Seus  sonhos  de trocar de casa, sua
torcida  para  que  seu time faça uma boa temporada, o tesão que você sente pela  ascensorista com ar triste. Suas noites de insônia, essa sinusite que você  está  desenvolvendo,  suas saudades do cigarro. Os planos de voltar à
academia, a grande contabilidade (nem sempre com saldo positivo) dos amores e  dos ódios que você angariou e destilou pela vida, as dezenas de pequenos problemas  cotidianos  que você tinha anotado na agenda para resolver assim que  tivesse  tempo.  Bastou um segundo para que tudo isso fosse desligado. Para  que  todo  esse universo pessoal que tantas vezes lhe pesou toneladas tenha  se  apagado.  Como uma lâmpada que acaba e não volta a acender mais. Fim.

Então,  aproveite  bem  o  seu  dia. Extraia dele todos os bons sentimentos possíveis.  Não  deixe  nada  para  depois.  Diga  o  que  tem  para dizer. Demonstre.  Seja  você  mesmo.  Não guarde lixo dentro de casa. Não cultive
amarguras e sofrimentos. Prefira o sorriso. Dê risada de tudo, de si mesmo. Não  adie  alegrias  nem contentamentos nem sabores bons. Seja feliz. Hoje. Amanhã é uma ilusão. Ontem é uma lembrança. No fundo, só existe o hoje.


JOANA, A ESCRAVA ( Parte VIII – final)

11 junho 2009

Os corpos foram trazidos do açude, prenderam Joana na senzala, fizeram o sepultamento das crianças ali mesmo no sitio e os pais e pessoas mais velhas se reuniram para decidir o que fazer com a escrava. As mães não se manifestaram, mas o genro e seus familiares, foram de opinião que Joana fosse amarrada ao tronco, chicoteada sem piedade e depois pendurada nas correntes, próprias para isto, que existiam na senzala, ficando lá, sem alimento e sem água. Mas meu tio-avô, que tinha a última palavra, declarou que não tinha coragem de açoitar a escrava. Decidiu que ela sería vendida sem ser maltratada, para não prejudicar o preço. Todos tiveram que concordar. Ele chamou um mercador de escravos e o incumbiu de levar a peça para o Aracati. No Ceará e vendê-la.
O porto do Aracati, na desembocadura do Rio Jaguaribe, era movimentado pela chegada de navios negreiros vindos da África carregados de negros e de pequenos barcos que faziam o transporte das “mercadorias” para outros Estados. Tinha a  praça para o mercado de negros e lá Joana foi negociada. Três contos de reis!  Uma fortuna na época, que foi paga sem regateio, pois a escrava tinha as qualidades físicas que preenchia as exigências dos compradores. E até hoje ninguém soube o destino de Joana. Não se soube também se o meu tio-avô salvando a pele de Joana, não cometeu crime maior, deixando sem punição um monstro, livre para cometer mais desses crimes hediondos.
 
NOTA DA AUTORA
 
Esta história me foi contada por minha mãe, Carina de Almeida Costa, cuja mãe, (minha vó Idalina), era
irmã do proprietário de Joana. Minha irmã Maria, considerava que Joana não tivesse praticado esses horrores por instinto criminoso e nem por vingança. Devia ser por algum trauma que tivesse afetado sua mente, talvez por lhe terem tomado os filhos, que os amos se encarregavam de “fabricar” para aumentar o número de escravos e que lhes tenham sido arrancados dos braços, sem lhe dar direito de chama-los de filho e nem de ouvi-los chama-la mamãe.
 
                           Zenáide de Almeida Costa
                                   Recife – Pe.


ISAURA, A ESCRAVA – (Parte VII)

10 junho 2009

A revolta foi grande. As mães gritavam em desespero. As outras pessoas faziam ameaças, as escravas choravam, os pais gemiam de dor! Mas desta vez, Joana estava impassível! Nem choro ou lamentação, as feições contraídas, o corpo estático. Mantinha-se de pé, amarrada com a corda do vaqueiro, esperando seu destino. Meu tio-avô interrogou-a, perguntando se fora ela quem matara as outras crianças, e ela, friamente, confirmou, contando com detalhes como tinha morto cada uma delas: a primeira ela esperou que todos se reunissem no refeitório, tendo o cuidado de observar se não ficara ninguém que pidesse vê-la. Foi ao quarto, tirou a menina dormindo da rede, saiu correndo com ela nos braços escada abaixo e atirou-a no meio de fogueira; a segunda, enquanto todos comiam frutas embaixo das fruteiras, ela se distanciou com o menino e quando todos saíram, trouxe a criança para a beira da cacimba, tirou os chinelinhos dos pés dele, tapou a boca para ele não gritar e atirou-o na cacimba. Ficou esperando que ele afundasse e, de mansinho, se incorporou ao grupo, sem deixar suspeitas; a terceira ela aguardou que se fizesse silêncio na casa. Quando constatou que todos dormiam, foi _a rede do garotinho, acordou-o e treouxe-o pela mão até o quarto de despejo. Lá, pegou o menino nos braços e sem que houvesse tempo para qualquer reação da parte dele, segurou-o pelos pés e mergulhou sua cabeça na tijela de sabão fervendo. A crianã nem gritou e ela segurou as perninhas até ter certeza de que ela estava morta. Saiu sem ser vista e foi para o quarto onde dormiam outros meninos; a quarta, ela observou quando a ama deu alimento à criança e a levou para dormir. Saiu, andou pela sala de jantar onde todos ainda estavam reunidos, para que todos a vissem e sorrateiramente foi lá no quarto, pegou a menininha e saiu por uma porta lateral onde ninguém pudesse vê-la. Chegando ao riacho deitou a menina na beira d”água, enterrou a cabecinha na lama e ficou segurando até que ela moresse; os dois últimos ela os convidou para um passeio e…todos já sabiam o que tinha acontecido. (Continua)


JOANA, A ESCRAVA – Parte VI

10 junho 2009

O vaqueiro não perdeu tempo: jogou-se na água com toda aquela roupa de couro e mais um rolo de corda preso à cintura e nadou a toda velocidade para o local. Quando a mulher percebeu que alguém a tinha visto e que vinha a nado até o local, apressou o passo e desapareceu no meio da vegetação. Ela correu muito e como o terreno era bastante acidentado e o pote d/’agua pesado, escondeu-se entre os arbustos, sentou-se numa pedra e ficou aguardando o que aconteceria. O vaqueiro saiu do açude e correu no rumo que a mulher tinha tomado.
Ao avistá-lo ela correu, mas ele foi mais rápido: tirou o rolo de corda da cintura, armou o laço e prendeu a mulher. Quem sería ela? O susto do vaqueiro foi enorme! Era Joana, a escrava predileta, a quem os amos queriam tanto e tratavam com tanto carinho! Ele amarrou-a bem segura pelos braços, deu um laço na cintura dela com a mesma corda e se encaminhou para a casa grande.  Meu tio e outras pessoas estavam no alpendre, sentados em redes e conversando, quando avistaram o vaqueiro trazendo Joana amarrada e puxada como se fosse um animal de carga. Levantaram-se todos, meu tio protestando contra aquela atitude do vaqueiro, mas este pediu que tivessem calma e mandou que fossem para à beira do açude  pegar os corpos das crianças, que já mortas, haviam afundado quando ele passou por elas. Foram buscar os corpinhos.  Eram dois meninos, da mesma idade, oito anos, um de cada casal.
 
(Continua)


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