M I N H A S V I D A S
Nesta fria e chuvosa noite de 10 de abril de 2011, pus-me a pensar a respeito de minhas outras vidas. Não vidas separadas pela morte, mas as vidas que vivi, dentro desta minha vida. Todos nós vivemos épocas tão distintas que nos parece até inverossímeis
terem existido. Nas minhas lembranças da infância, vivo um tempo maravilhoso da descoberta do mundo, das peladas na rua com a molecada, das paixões pelas coleguinhas da escola, da pesca do siri com um pedaço de bofe de boi amarrado com um cordão na ponta de uma vara, das matinês de domingo nos cinemas do bairro, sobraçando gibis lidos e relidos para troca e venda, da descoberta da leitura, enfim, assisto a tudo isso como se não tivesse acontecido comigo, como se estivesse no cinema assistindo a uma aventura cinematográfica. Outro filme que assisto amiúde, é o da juventude. A descoberta do amor carnal por uma mulher que nos transforma de curioso a caçador implacável de aventuras amorosas, das loucuras típicas dos inconseqüentes, como nadar, com perigoso risco,
em mar aberto, longe da praia, pular da Ponte do Pina e da Ponte Duarte Coelho, no centro da cidade, esta em plena tarde de sábado de carnaval, vindo da pelada na praia… nem parece que fomos nós. E é certo que não fomos. Foi outro, quem viveu essas vidas, porque com a experiência da pessoa que hoje somos, jamais praticaríamos tamanhas sandices. Mas foi preciso que as cometêssemos, para sermos o que hoje somos. Um dia assistiremos a todas as nossas vidas, sentados em poltrona de luxo, no Cinema de Deus.
(Extraído do meu livro “Diário de Bordo”, ora em elaboração).
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Escrito por Paulo Bezerra