Recebi carta da minha amiga Zenaide Almeida Costa, a respeito da data de 13 de maio, abolição da escravatura,
Infelizmente não comemorada em nosso país. Zenaide é
uma pessoa que veio enriquecer em muito, meu rol de amizades. Ofereceu-me seu livro “ a Vida em Clave de dó” e ganhou, não um leitor fiel, porém um fã. Seu livro deveria ser leitura obrigatória em todas as escolas. Junto
à carta, veio o seu trabalho JOANA, A ESCRAVA. Resolvi dividir com vocês esse trabalho dessa excelente escritora e historiadora norte-riograndense.
JOANA, A ESCRAVA – (Parte I)
Meu tio-avô morava no Município de São Miguel-RN no sítio de sua propriedade, onde possuía engenho de cana de açúcar, explorando também o cultivo de algodão, feijão, milho, arroz e mandioca, complementando tudo isto com uma relativa criação de gado bovino, caprino e muar, além de um bom número de escravos.
Vizinho à sua propriedade morava o genro, também proprietário de terras e outros haveres e tinham por hábito se reunirem nos fins de semana e dias de festa, em qualquer um dos sítios. Juntava-se a família toda, que era grande, inclusive com várias crianças da mesma idade, pois mãe e filha pariam ao mesmo tempo, já que ambas eram muito novas. A meninada toda era entregue aos cuidados das escravas, que se dedicavam com verdadeiro amor maternal aos seus patrõezinhos.
Joana era a escrava de melhor aparência. Nova – devia ter seus dezoito anos – bonita, bem feita de corpo, forte e sadia. Cuidava das crianças com tanto amor que a ela eram confiados os recém-nascidos e era ela quem sempre acompanhava as crianças nos passeios por dentro dos sítios, nas brincadeiras e para onde as crianças fossem.
As duas famílias faziam muitas festas e a mais importante delas eram os festejos de São João. Esta festa era comemorada com um exagero de comida, desde as de milho (milho assado, milho cozido, pamonha, canjica, bolo), uma infinidade de bolos de goma e de mandioca, entre eles o famoso pé-de-moleque, cuja receita foi ensinada às brancas, pelas escravas. Matavam bois, porcos, preparavam com antecedência metros e metros de lingüiça (chamavam de vara), faziam um estoque de frutas e doces, colhiam feixes enormes de cana para ser descascada e distribuída entre ceianças e adultos. As fogueiras em frente à casa grande eram armadas com cargas e mais cargas de lenha, pois tinham que durar a noite toda queimando, além de fazer a brasa para assar milho e as carnes de porco e de boi.
(Continua)