Era farmacêutico prático pois naquele tempo não existia ainda essa história de faculdade de farmácia.
Se aprendia o oficio era fazendo, adivinhando os hieróglifos dos médicos e não errando nunca na dosagem dos ingredientes pois disso dependia a vida do cliente. Também aplicava injeções, fazia curativos, sarjava tumores, enfim, nasceu mesmo para galeno. Gostava muito do que fazia e seu sonho sempre foi ter sua própria farmácia. Mas era muito pobre e parecia fadado a sempre trabalhar para os outros. Como gostava muito do que fazia e era muito dedicado ao trabalho, sempre recebeu convites para novos empregos em Farmácias de manipulação cada vez maiores. Até que foi chamado para integrar um Laboratório, onde teria liberdade de criar seus próprios medicamentos. Aceitou felicíssimo e, as suas custas, o tal laboratório lançou muitos medicamentos, de fortificantes a vermífugos, passando de industriazinha sem expressão, a grande no ramo. No entanto, sem tino comercial e cheio de boa fé, ele era cada vez mais pobre. Após marcar passo por 14 anos, decidiu que chegara a hora de ser dono do seu próprio negócio. Passou adiante o contrato de compra que tinha de uma casinha de vila e comprou uma bodega de farmácia em arrabalde distante. O vendedor aproveitou-se de sua falta de tino comercial e entupiu a pequena farmácia que estava vendendo com todos os medicamentos perto de vencer o prazo de validade que tinha na sua rêde de farmácias, além dos “alcaides” como são chamados os medicamentos que não se vende nunca, sobras.
Como a transação era “mercadorias em balanço” o pobre pagou uma fortuna por algo que não valia nada. Mas que estava feliz, isso estava, mas e o tino comercial? Chegava um pobre com uma receita de um remédio que custava 35,00 por exemplo e ele dizia: “ eu vou fabricar esse remédio, e você paga apenas 0,50.” Uma aplicação de injeção custava
1,00 mas não raras vezes via-se após a aplicação ele dizer: “Tome, leve o dinheiro para comprar bolachinha Maria para sua criança, ela está tão magrinha”… Qualquer um que falasse fiado, ele vendia. Mesmo àqueles que já deviam muito à farmácia. Foi assim que antes de falir, vendeu até a máquina registradora para comprar mercadorias. Pode-se dizer que ele jamais foi um comerciante, mas, fiz questão de colocar no seu santinho de missa de sétimo dia a seguinte inscrição: Volta hoje a Vós, Senhor, um homem bom e que nunca fez mal a ninguém. Assim era Francisco, meu querido pai.
Paulo Bezerra – (30/12/2008)
O FARMACÊUTICO
31 Dezembro 2008DOM HÉLDER CÂMARA ( De carta enviada ao Jornal do Commercio)
31 Dezembro 2008Sempre admirei o trabalho social de Hélder Câmara, desde quando o Dom dirigia o “Banco da Providência” no extinto Estado da Guanabara. Quando chegou à nossa cidade, no ”olho do furacão” do regime militar , saudei-o através de carta em jornal, dando-lhe as boas vindas. Escrevi também sobre o Padre Hélder, como gostava de ser chamado, na “Folha Forte”, na Seção religiosa do “Jornal do Commercio” e também no meu livro “Quando leres esta carta”. E finalmente, tenho seu livro “Mil razões para viver”, sempre a minha cabeceira. Por todos esses motivos, sinto-me chocado com reportagem que li hoje no “JC” a respeito de caminhada que será feita pelo grupo “Mulheres contra o desemprego” em homenagem ao Dom, tendo à frente um Boneco Gigante, com as características físicas do religioso, confeccionado pelo bonequeiro-carnavalesco, Silvio Botelho. Cúmulo do mau gosto e da falta de respeito. Fica a parecer um cordão carnavalesco. Dom Hélder era muito tolerante e compreensivo, mas duvido que aceitasse esse carnaval. Não é atoa que os nossos irmãos evangelicos nos chamam de “adoradores de ídolos”.
Paulo Fernando de Moura Bezerra Cavalcanti
assinante
VIZINHO ENCRENQUEIRO
29 Dezembro 2008O Nilton Pintassilgo tinha uma maneira muito peculiar de viver. Não era o que se pode chamar de desonesto, mas também não possuía essas honestidades todas. Com esposa e seis filhos para sustentar e tendo como renda apenas uma criação de cachorros de raça para venda dos filhotes, vivia no fio da navalha o tempo todo.
Quando vinham cortar sua luz por falta de pagamento, o que ocorria com habitualidade, me procurava e pedia dez reais “emprestados,” para “molhar a mão” do funcionário, não para que suspendesse o corte mas para que deixasse um pedaço de fio grande no poste, a fim de que ele religasse por conta própria, logo depois. E ao que me consta, nunca pagou nem as contas de luz, nem os dez reais que me pedia emprestado. Aliás, nunca tive notícia de que Pintassilgo houvesse pago alguma coisa a
alguém. No quintal de casa nós tínhamos um pequeno campo de voleibol. As filhas dele sempre desafiavam minhas filhas para uma partida, coincidentemente perto das horas de refeição. Acanhadas, aceitavam ficar para almoçar ou jantar. E sempre levavam algum resto para os cachorros. Por favor, não me perguntem quais. Um dia um primo meu esteve em nossa casa e falou que estava atrás de um filhote de cão pequinês, para dar de presente aos filhos. Vi ali uma boa oportunidade de ajudar meu vizinho e também meu primo, apresentando um ao outro. Menino pra quê…
Pintassilgo, cheio de salamaleques, disse que um parente meu não pedia, mas sim, mandava na sua casa. Foi buscar o que segundo ele era o suprasumo da eugenia da raça pequinês. De tão apurada a raça, ele nascia com o focinho pontudo, mas depois ia virando para cima, até ficar uma verdadeira pintura. Ainda tentei interferir, perguntando se ele não tinha um com o focinho “já virado”. Não, ele não admitia que uma pessoa minha, levasse nada que não fosse o melhor. Quanto ao preço, era o de menos. Um cachorro como esse vale, por baixo, mil e quinhentos, mas eu vou dar, em consideração ao meu vizinho a quem aperreio tanto, por seiscentos contos. Negócio fechado, preço pago, mercadoria entregue e até hoje os filhos do meu primo têm um lindo cãozinho vira-latas, cujo focinho nunca virou, mas que eles adoram.
Paulo Bezerra – ( 27/12/08)
SARAMAGO O ATEU
29 Dezembro 2008Acho muita graça quando leio declaração do escritor português José Saramago dizendo-se ateu. Em primeiro lugar o ateu é apenas alguém que procura desesperadamente quem o negue, a fim de encontrar o que procura: Deus. Depois, quem é inteligente não pode acreditar nessas baboseiras de geração expontânea, Big Bang, sopa de bactérias e outras sandices. E Saramago é inteligente. Muito inteligente. Tão inteligente que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Não pode dizer-se ateu quem escreveu um livro como “O Evangelho segundo Jesus Cristo”. Nele, Saramago descreve um Jesus tão Divino, quanto humano, pois estava revestido da carne.
Os conflitos de quem nasce já com uma missão e tem de cumpri-la, mesmo carregando sua humanidade carnal que tem medo, que sofre fome, sede e frio, ele os descreve com maestria. Já os conflitos psicológicos do carpinteiro José e a sua crucificação que ele mesmo procurou têm uma carga emocional enorme. O Jesus descrito por ele tem todas as fraquesas humanas, menos o pecado. Quem tem a sensibilidade de escrever uma obra dessas, nunca poderá dizer-se ateu. Nenhum dos seus livros, chega a altura do “Evangelho…”, mas
“Ensaio sobre a cegueira” consegue chegar bem perto.
Paulo Bezerra – (26/12/2008)
O ESPÍRITO DO MOTORISTA
26 Dezembro 2008
Meu tio Otavio era espírita. Ele e toda a sua família. Certa vez, quando rapazola, falei-lhe para freqüentar uma Sessão Espírita e ele me disse que mais valia um bom católico do que um mau espírita, ou vice-versa. Que toda religião era boa, porque os propósitos eram idênticos: a busca de Deus. Que me considerava um bom católico e portanto ficasse onde estava. Não tinha pois, qualquer proselitismo. Também não contava suas experiências, embora fosse vidente. Mas minhas primas contavam. Um fato, de tão maravilhoso, ficou para sempre na minha memória. Gerente de uma grande industria, em Campina Grande, tio Otavio foi transferido para gerenciar a filial do Recife. Vinha com toda a família de carro, quando ouviu uma pancada na roda dianteira do veículo. Parou no acostamento que era perigosíssimo por ser à borda de um enorme precipício. Achou o pneu meio troncho e tirou a calota. Os quatro parafusos estavam soltos, dentro dela. Apenas teve o trabalho de colocá-los no lugar e seguir viagem, após apertá-los bem, com a chave de roda. Culpou os mecânicos que fizeram a revisão antes da viagem. Instalado no Recife, anos depois, chegando em casa para almoçar, notou que havia algo estranho na casa. Trancou-se no quarto do oratório e mal começara a rezar, quando apareceu ao seu lado um homem que fora seu motorista em Campina Grande e desaparecera sem dar notícia. Disse-lhe o espírito, que estava ali para pedir socorro. Achava que tinha morrido porque houvera um desastre e vira seu próprio corpo todo ensangüentado no chão, mas achava que não era ele, porque se sentia muito bem. Mas que falava com as pessoas e elas nem ligavam. Meu tio mandou-o ficar em um lugar que não incomodasse ninguém e que iria rezar por ele. Meses depois tio Otavio “sente” novamente alguma interferência em sua casa. Outra vez vai rezar e lhe aparece o mesmo homem, só que agora bem vestido, de palito branco, e diz-lhe que está ali para agradecer, pois assim que ele começara a rezar, bons espíritos vieram buscá-lo e o levaram a um lugar como um hospital onde ficara deitado e recebendo ensinamentos. Recuperado, deram-lhe 500 anos para fazer o bem na terra, após o que, receberia outra chance de nascer de novo e cumprir sua missão. O senhor lembra de quando vinha com sua família de carro de Campina Grande? Iam morrer todos. Eu quem segurei a roda do carro até o senhor ouvir o barulho e parar. Mas aquilo foi antes de você me aparecer pela primeira vez, disse-lhe meu tio. E quem disse ao senhor que lá tem essa história de tempo ? Lá as coisas acontecem porque têm de acontecer. Transcrevi a história porque ela sempre me causou um misto de admiração e esperança.
A prima que me contou também já está na Casa do Pai, que Deus a tenha em sua Glória. Amém!
Paulo Bezerra (25/12/O8)
A ESSENCIALIDADE DA LEI
23 Dezembro 2008Sem a lei, não conseguiríamos chegar até a próxima esquina, porque, sem sinal, todos os carros iam querer passar primeiro e o trânsito se tornaria impossível. Até por cima das calçadas iriam querer trafegar. O atendimento nas lojas e super mercados não sería possível porque todos iam querer ser atendidos primeiro. Qualquer resquício do que chamamos civilização, só pode existir, se tiver respaldo legal. Muito se discute, no mundo inteiro, sobre a cientificidade do Direito. Os que não reconhecem que seja ciência, alegam que as ciências exatas, têm Leis e princípios. A física, por exemplo, diz que a água ferve a cem graus. E dê no que der, a cem graus a água ferve mesmo. Já o Direito diz que o homem não deve matar, porém ele mata. Então, é ciência ou não?
Claro que é. Só que é uma ciência cultural. É a ciência do “dever ser”. O homem não deve matar, porém são seus o livre arbítrio e as conseqüências. O Direito nasce, entre outras coisas, do fato social. Sem ele os conflitos inter pessoais jamais seriam resolvidos e prevaleceria a Lei do mais forte. Agora, que uma coisa fique bem clara: A Justiça não emana da Lei, porque se emanasse, Cristo teria morrido em vão, porque foi julgado e condenado. Não há a menor Justiça para o assaltado que perde os bens ou a vida no ato covarde do assaltante.
Mas há muito menos Justiça, no ato do advogado que o põe na rua ou do policial corrupto que o deixa escapar a trôco de reais. No entanto esses atos não desqualificam nem Lei e nem a Justiça, que existem, para seres respeitadas. Nós que as deturpamos com nossa fragilidade moral.
Paulo Bezerra – (22/12/08) – Recife
OS PASTÉIS DE DONA CARMEN
23 Dezembro 2008Minha mãe tinha duas especialidades: fazer promessas e fazer pastéis. Tinha freguesia com Santa Terezinha do Menino Jesus para as promessas. As pessoas da família costumavam visita-la, quando necessitavam alcançar uma graça para pedir que fizesse uma promessa, pois sabiam que ela sempre era atendida. Geralmente pedia um sinal, o recebimento de uma flor no decorrer da novena e eram inúmeros os casos em que tal acontecia. Fui testemunha disso desde a mais tenra infância. Muito mística, minha mãe não perdia a Santa Missa e chorava copiosamente no ato da elevação da Hóstia e do Cálice sagrados. Parecia entrar em êxtase. Comungava toda primeira sexta-feira do mês religiosamente, e fazia sempre, adoração perpétua ao Santíssimo Sacramento exposto. Nunca esqueci certa ocasião em que fez operação bastante perigosa.
Enquanto sua maca era conduzida pelos corredores do hospital à sala de cirurgia, rezou em silêncio. Mas quando as portas de vidro se abriram, sua voz ecoou forte em todo o recinto: “Sagrado Coração de Jesus, eu tenho confiança em voz”…
A outra especialidade de Dona Carmen eram os pastéis que só ela sabia fazer. Nunca escondeu a receita, pelo contrário, insistia que filhas e netas aprendessem, mas nunca nenhuma conseguiu. Eram pastéis simples de carne, mas tinha que ter para faze-los, farinha de trigo, um ovo, carne de porco bem magra, moída, banha de porco, azeitona preta e açúcar refinado que hoje se chama açúcar de confeiteiro. O segredo, acho que estava no amor com que ela os fazia, pois tinha noção exata do quanto eles iriam agradar a todos. Depois de misturar os ingredientes sovava a massa com vontade. Chamava as crianças da casa, para, após lavarem bem as mãos, baterem também na massa.
Depois deixava-a descansar. Muitas horas depois, cortava a massa em pedacinhos e com uma garrafa cheia d”água, começava a abrir os pastéis. Colocado o recheio, pegava pelas pontas, molhava com um pouco de água açucarada as bordas e fechava, após o que, vinha com um garfo sujo de farinha de trigo e picotava as pontas. Dali iam para a frigideira cheia de óleo fervente, onde inchavam e ficavam parecidos com um sapo cururu. Após escorridos, mergulhavam no açúcar refinado e se transformavam na iguaria mais notável que conheci.
Justo agora, nesta época de Natal, veio à minha mente e ao meu coração, a lembrança dos pastéis e a saudade de Dona Carmen. Que o Bom Deus a tenha em sua Glória, amém!
Paulo Bezerra – (21.12.08)
A ÚLTIMA MISSA
21 Dezembro 2008
A primeira missa rezada por um padre, deve ser emocionante. Para ele e para os que a assistem.
Nunca assisti a uma mas participei de uma última missa, rezada por um padre que ia deixar a batina. Posso garantir que deixa um ranço, um travo amargo na garganta, uma sensação de nunca mais e de pesar, principalmente de pesar, pelo que está saindo da luta, entregando os pontos, desistindo de um ideal.
O padre era moço ainda, mas não um rapaz. Um adulto jovem. Iniciou a homilia dizendo que essa era a última missa que rezava. Estava deixando a Igreja, não por falta de fé, mas por absoluta fraqueza. Iria se casar em breve porque pecara contra a castidade imposta a sua condição de sacerdote. Explicou que ninguém se preocupasse quanto aos atos praticados por ele até aquela missa, porque todos eles eram válidos. Os casamentos, os batizados, as confissões, tudo legítimo. Que um padre pode ir para o inferno, mas salvar dele muita gente. Que juntamente com a batina, perderia também o cargo de ……………………
No começo sua voz era forte, mas no final tinha apenas um fio de voz, e as lágrimas corriam fartas por suas faces. Ele não precisaria rezar aquela missa e nem praticar aquele ato confissional. Mas decidiu fazê-lo, talvez como uma pequena expiação pelos atos praticados. Pediu perdão a toda a comunidade e
depois, muito compungidamente, pediu publicamente perdão a Deus, por ter sido fraco e por ter sido covarde. O silêncio na Igreja era total. Ninguém ousava respirar, esperando o que viria a seguir. Após a benção, ainda se dirigiu aos fiéis, pedindo que fossem todos para as suas casas, evitando procurá-lo após a missa por absoluta incapacidade psicológica de manter qualquer diálogo naquele momento. Obedecemos ao seu pedido e saímos todos em silêncio, emocionados e chocados. Não sei o destino do Padre. Se o seu casamento prosperou ou se voltou a Igreja. Só sei que assisti a uma bela cena de um homem que soube traduzir publicamente, toda a glória e toda a miséria de ser um ser humano.
Paulo Fernando Bezerra ( 20.12.2008)
A VINGANÇA DO SALVA VIDAS
20 Dezembro 2008No década de 60, a praia da Boa Viagem, no Recife, era tudo o que se podia sonhar. Limpa, despoluída, piscosa, águas mornas e transparentes, um paraíso. Era bem jovem nessa época e morava quase a beira mar. Vivia em cima de uma bicicleta, paquerando as gatinhas que eram muitas. Turmas em vários pontos da praia: “Corta-jaca”, “Acaiaca”, “Castelinho”….
Não raro, com a irresponsabilidade da Juventude, decidiamos “dar um Show”, imaginem, como chamávamos entrar nadando mar a dentro, até desaparecer de vista. As garotas achavam o máximo e ao voltarmos éramos recebidos como verdadeiros heróis. Quem não gostava nem um pouco do “show” eram os Salva-Vidas, com carradas de razão. Principalmente nos dias de domingo, com a super lotação da praia, os banhistas do subúrbio, sem a menor experiência, as vezes queriam nos imitar, dando trabalho extra a eles. Brigavam conosco, nos ameaçavam de prisão, mas isso mais nos tornava heróis perante as garotas. Certo domingo o mar estava meio encapelado pois chovera e ventara muito durante a noite e ainda ventava forte. A conversa em nosso grupo era se teríamos coragem de entrar mar a dentro naquele dia. Duas carioquinhas lindas, primas de uma garota da nossa turma, nos desafiaram. Eu e “Muriçoca”, que nadava muito bem, resolvemos topar o desafio. Quando chegamos à água, ouvimos um psiu. Era um Salva vida nos ameaçando e mostrando uma viatura da Rádio Patrulha estacionada no asfalto:” se vocês passarem dos arrecifes, prendo os dois.” Vou só lavar as mãos, lembro que respondi. Mergulhamos e iniciamos a aventura. Passamos nadando por cima dos arrecifes e entramos nadando mar a dentro. Qando paramos para descançar um pouco vimos três Salva Vidas vindo em nossa direção, para nos prender, claro. Como tínhamos uns cinqüenta metros de dianteira, metemos a braço a nadar, até que eles desistiram e voltaram. A essa altura uma multidão se formara na beira mar e os recebeu com estrondosa vaia. Não podíamos voltar por onde entramos porque seríamos presos, claro. Nadamos até a “Casa
Do Navio” e saímos do mar lépidos, fagueiros e livres de perseguição. Mas a vingança deles já estava feita. Haviam ido até a minha casa, pois sabiam onde eu morava, e disseram aos meus pais que eu havia morrido afogado. Minha mãe foi socorrida no Hospital, meu pai estava com ela e os parentes na beira da praia esperando que aparecesse o corpo. Vingança torpe e covarde, porque não foi de mim que se vingaram.
Paulo Bezerra ( 19/12/2008)
TÁ RINDO DO QUÊ ?
19 Dezembro 2008(Histórias que Rita contava)
Rita era mestra sim, e gostava de contar histórias. O melhor é que ela ria mais do que quem as ouvia. Seus causos sempre eram recheados pelo bom humor dos seus comentários ricos em detalhes. Uma das melhores que escutei na minha infância, foi a do Senhor de engenho que tinha uma imensa plantação de milho, porém os macacos da região viviam se fartando, comendo e estragando as espigas. De nada adiantavam vigias e nem espantalhos, pois os símios eram sabidos por demais, como ela dizia. Um dia, vendo o aperreio do seu dono, um velho cavalo nascido e criado no engenho, propôs ao seu patrão, (aí ela parava e dizia que naquele tempo os bichos falavam sim senhor), o seguinte: Ele livrava a plantação dos macacos e como pagamento, receberia a sua aposentadoria. Nunca mais puxaria carroça. O patrão aceitou mas sem muita confiança. No dia seguinte o cavalo amanheceu estirado no milharal, imóvel, se fingindo de morto. Os irriquietos macaquinhos acharam logo que aquele animal enorme já estava fedendo e que precisavam tirar ele dali. O chefe do bando teve então uma idéia. Eles rasgariam as palhas dos milhos, amarrariam uma ponta na cintura e a outra em alguma parte do cavalo. Então, todos juntos, arrastariam o bruto para longe do local. Dito e feito. Quando todos estavam bem amarrados e se esforçavam para puxar o cavalo, eis que o danado fica de pé e desembesta ladeira abaixo, arrastando os pobres dos macacos pelo chão.
Quando cansou e resolveu parar junto ao açude para beber água, restavam apenas dois macaquinhos ainda amarrados, todos esquatelembados, mas ainda tiveram força para falar: – Mais compadre, tu tas vendo uma desgraça dessa e ainda tas te rindo…
Responde o segundo macaco: – Rindo o que, infeliz, tu tas vendo beiço aqui… E Rita encerrava a história dando uma de suas famosas gaitadas.
Paulo Bezerra – (17/12/2008)
Escrito por Paulo Bezerra
Escrito por Paulo Bezerra
Escrito por Paulo Bezerra