DIÁRIO DE BORDO
Nem todos os que se declaram
doutores da verdade, o são na
realidade. Há também os falsos
Profetas.
Podem ser reconhecidos por
suas obras más.
(Mateus, 7 – 15,21)
Acima do estrado que servia de palco ao pastor, uma placa luminosa alertava: “NO AR”,em letras vermelhas. Oque pregava tinha uma voz autoritáriamente vibrante. Pareceu a mim,
que ali estava pela primeira vez, a voz de uma pessoa muito bem treinada, para despertar emoção. Os fiéis estavam praticamente em transe. Uns olhavam para o telhado com as mãos estendidas , em súplica, outros tremiam os lábios e o queixo e em quase todos as lágrimas corriam fartas. O transe acabou ao apagar o letreiro que dizia estarem no ar. A magia foi quebrada pela voz estridente dos “obreiros”, que usavam compridas varas, com uma sacola de pano vermelho presa à ponta, para arrecadar dinheiro dos fiéis. Tirava-os da oração sem a menor cerimônia, cutucando-os, muitas vezes no rosto . Suas vozes eram rascantes e agressivas. E não paravam um só instante de sugar os pobres ocupantes dos bancos de orações. A primeira vez que me colocaram a tal sacola na frente, ainda contribui, mas logo depois chegou outro obreiro e me tocou com a tal sacola no tórax.
Falei que já havia contribuído porém fez que não ouviu e continuou com a sacola no meu peito. Como não havia sido hipnotizado, segurei firme na sacola, puxando-a e empurrando-a com firmeza. Santo remédio, meu algoz foi embora. Eu estava ali, a pedido da minha esposa que é evangélica. Faltavam dias para minha cirurgia cardíaca, e, segundo acreditava ela, ingenuamente, eram tantos os milagres que ali aconteciam, que provavelmente eu nem precisaria ser operado. O que vivi naquela “igreja” foi uma revolta enorme, acompanhada de muita pena dos pobrezinhos explorados por aquela súcia. Sobe ao estrado um outro pastor, muito mais versado na arte de arrancar dinheiro. Primeiro ameaçou a quem negasse dinheiro a Deus, (eles, lógico). Depois perguntou quem ali tinha fé. Todos levantaram as mãos . “Quem tem fé de doar a Deus cinqüenta reais? “ Duas pessoas levantaram as mãos. Imediatamente os obreiros-cobradores abordaram os doadores. “Quem tem fé de doar trinta
Reais?”, Depois, 20, 10, 5,2 e 1 real. Mas não parou ali. Seguiram-se 50, 25, 10 e 5 centavos. Doía ver
Os pobrezinhos de joelhos, surradas sandália de dedo nos pés, sendo “aliviados” do dinheirinho do ônibus até os últimos centavos. Quando não havia mais o que ser sugado, a rádio entrou novamente
“NO AR” e não se tocou mais no assunto dinheiro.
Em vez, o “pastor” fez uma prática linda, com uma voz aveludada e amiga, convidando os ouvintes a presenciarem pessoalmente os “milagres” que ali ocorriam. Após a fala do “cobrador de Deus”, já sem transmissão pelo rádio, foram distribuídos envelopes a fim de que os fies os levassem para casa, e os devolvessem com sua contribuição para a Campanha disso, Campanha daquilo….
E eu não sei como os céus não mandaram um raio sobre as cabeças daqueles bandidos, vendilhões do templo. Nem vou falar das “curas” ali ocorridas. Teatro da pior qualidade, encenado por péssimos atores. Na saída, juntamente com os fiéis, saíram
Os sacos de dinheiro, escoltados por cerca de dez seguranças. A única coisa que pude fazer, foi prometer relatar isso à maior quantidade de pessoas que pudesse. Promessa que estou cumprindo agora, tantos anos depois.
(Afogados, 08/06/2011)